quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Analise Sobre a TULIP

Pastor Marcelo Lemos (Pastor Pentecostal Reformado)
Tenho notado um grande interesse pelos temas relacionados ao calvinismo. Tal interesse não ocorre apenas aqui na nossa “Apologética Cristã Evangélica” , mas em diversos outros lugares. Como sinaliza o Rev. Augustus Nicodemos, o Brasil esta despertando para as Doutrinas da Graça. De fato, podemos presenciar este despertar quase todos os dias. E grande parte deste renovado interesse pelas Doutrinas da Graça vem dos pentecostais. Temos notícias até de grandes ministérios assembleianos que já promovem fóruns relacionados ao assunto.

A nossa “Apologética Cristã Evangélica” tem presenciado muitos temas relacionados a este assunto e, atualmente, há certa proliferação de assuntos correlatos em tópicos distintos. Por um lado é bom ver tanto interesse pela Doutrina aqui na comuna; por outro, é ruim que isso se dê sem certa organização. Penso que se pudermos concentrar nossos esforços em um único lugar estaremos economizando tempo, espaço e energia.

Minha intenção neste novo tópico é tentar proporcionar um “pano de fundo” que nos possibilite dialogar sobre o assunto. Convicto de que boa parte de tais questões surge de um entendimento errôneo ou incompleto do calvinismo, iniciarei falando exatamente sobre este ponto. Em seguida, falo resumidamente sobre o que se convencionou chamar – a partir de ‘Dort’ – de “Os Cinco Pontos do Calvinismo”.

Desfazendo Erros…
A maioria das objeções contra o Calvinismo procede de pessoas que não sabem nada sobre ele. Por desinformação ou desonestidade, muitas pessoas criam uma caricatura daquela que foi, conforme declarou Lutero, a doutrina pilar da Reforma Protestante. Mesmo que seja apenas desinformação a situação é triste: como alguém se atreve a criticar algo que não conhece? Em um livro eletrônico, intitulado “Assim Diz o Senhor”, divulgado na Internet pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, encontramos a seguinte acusação contra o Calvinismo:

“Segundo Calvino, existiria no mundo um grupo de pessoas que poderiam fazer tudo errado, mas seriam salvas. E outro grupo de pessoas poderia fazer tudo certo, mas jamais se salvariam!”.

[Não sei o site citado é oficial da IASD, me parece que sim. Fica registrado o endereço para quem desejar conferir a fonte: www.advir.com.br].

A afirmação do site se baseia em desonestidade ou falta de informação? Difícil julgar. O que sabemos, é que não se baseia em nada que Calvino, ou qualquer outro Reformador, tenha escrito. Na verdade, logo depois de fazer tal afirmação, o autor da acusação acima, cita um trecho cuja autoria é de Calvino, na clara intenção de “validar” sua calúnia:

“Ora, a semente da Palavra de Deus só se enraíza e produz frutos nas pessoas que o Senhor, por Sua eleição eterna, predestinou para serem filhos e herdeiros do Reino Celestial. Para todos os outros (que pelo mesmo conselho de Deus foram rejeitados antes da fundação do mundo) a clara e evidente pregação da verdade só pode ser um cheiro de morte para a morte” (Calvino).

Obviamente não existe nada neste trecho de Calvino que dê margens para a infame calúnia. Impossibilitado de citar algum trecho onde Calvino confirme a acusação, o autor do livro se dá ao luxo de citar uma porção onde o grande teólogo da Reforma diz exatamente o contrário do que ele acusa!! De fato, nem Calvino, nem qualquer outro reformador, jamais disse que o eleito pode fazer o que bem quiser de sua vida, e nem que o não-eleito, ainda que faça tudo certo, não poderá ser salvo.

O que o calvinismo ensina? Ensinamos que a graça de Deus irá capacitar os eleitos a chegarem à estatura do varão perfeito, não com base nos méritos deles, mas pelos méritos do próprio Cristo. Também afirmamos que os não-eleitos jamais irão fazer tudo certo – como tolamente considera possível o autor do livro – uma vez que isso é contrário à natureza pecaminosa que possuem:

“Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas?” (Jeremias 13.23; João 6.44; 6.65; Ez. 11.19; etc.).

Mas a loucura de alguns parece não ter limite. Depois de ter citado Calvino, o autor do livro continua com suas acusações infundadas, e, portanto, inúteis. Ele diz que segundo o Calvinismo:

“Os que Deus destinou a salvação serão salvos mesmo pecando ou não querendo ser salvos. E os que destinou à perdição não serão salvos mesmo aceitando o Sacrifício de Jesus, e vivendo vida santificada.”

Se não fosse tão trágica, haja vista enganar milhares de pessoas, esse tipo de manobra seria hilária. Em que lugar do trecho que ele mesmo citou de Calvino, se diz que os eleitos serão salvos mesmo que não queiram? E onde se diz que os não eleitos, mesmo querendo, não poderão ser salvos? Em lugar algum! O Calvinismo jamais ensinou tamanha loucura!

Não é entranho, porém, que as Doutrinas da Graça despertem tanta perseguição. Desconheço qualquer outra doutrina que, como estas, humilhem tanto o homem e exalte unicamente a Deus sobre tudo e todos. Como já tenho dito aqui por diversas vezes, a doutrina pilar do calvinismo não é a eleição, mas sim a Soberania de Deus; a eleição, portanto, é apenas uma das expressões de sua Soberania na história da humanidade.

Com isso não quero dizer que as pessoas não tenham o direito de questionar as afirmações calvinistas. A semelhança dos crentes bereanos, sempre se faz necessário conferir todo ensino a luz das Escrituras Sagradas. De modo que o protesto acima não diz respeito aos que analisam, mas sim, aos que nos acusam de forma infame, como no exemplo analisado.

Quem se interessa pelo assunto pode encontrar grande auxilio lendo as obras de Calvino; a Confissão de Fé de Westiminster; O Catecismo Maior e Menor, e baixando literatura gratuita no site da Felire [www.felire.com].

Também aconselho que leiam pregadores fantásticos como Charles Spugeon [www.spurgeon.org]; pesquisem grandes comentaristas como Matthew Henry [publicado pela CPAD; e disponível gratuitamente em www.biblegatewaei.com]; e que não deixem de acompanhar o trabalho simples, mais genial, de pessoas como os irmãos da Revista Fé Para Hoje [www.fiel.com.br].

Esta ultima teve grande importância na minha vida. [Saiba mais...]

Mas cuidado! Pode ser que você descubra que o calvinismo tem em seu time cristão piedosos; cheios do Espírito Santo; sedentos por santificação e apaixonados por evangelismo e missões. Para aqueles que nos enxergam como um grupo de [i] eruditos carrancudos & desalmados [/i], tal descoberta pode ser um choque!

Para tentar facilitar um pouco mais o estudo, segue-se um resumo do que se convencionou chamar de “Cinco Pontos do Calvinismo”. Na verdade, estes cinco pontos foram escritos em resposta aos “Cinco Pontos” do protesto de Jacob Armínio [remonstrance]. Para saber mais sobre isso, jogue no GOOGLE a expressão “Cânones de Dort”.

Segue-se, então, um resumo dos cinco pontos do calvinismo:
1º) A ELEIÇÃO INCONDICIONAL

Nenhum cristão é louco o bastante a ponto de negar abertamente que a Bíblia fale de uma eleição e predestinação. Estes termos são facilmente encontrados nas Escrituras. Porém, não são poucos os que tentam alterar o significado óbvio destes termos e doutrinas. Consequentemente, não é errado dizer que grande parte dos cristãos, hoje, nega que haja uma eleição e predestinação na Escritura.

Os que negam a existência de uma predestinação que predestina gostam muito de usar a famosa analogia do barco. Dizem que Deus elegeu a Igreja, não pessoas, e assim, se alguém faz parte do Corpo, torna-se um predestinado. Como um barco dirigindo-se para o céu, a Igreja segue seu caminho vitorioso – se alguém pular pra dentro; será salvo, e caso um dia pule fora, estará perdido.

Existem diversos problemas com este conceito de predestinação. Primeiro, trata-se de uma predestinação que não predestina ; segundo, trata-se de um sistema de salvação meritório ; em outras palavras, Deus aponta uma chance de salvação e o homem precisa correr atrás.

Mas a predestinação bíblica não é geral, mas sim, pessoal e muito bem definida (Efésios 1.4,5; Romanos 8.28-30; Apocalipse 17.8; etc).

Além disso, a predestinação bíblica não é meritória , mas sim, um ato livre e soberano da graça de Deus (II Timóteo 1.9; Romanos 9; Efésios 2; etc).

Outros dizem que a eleição se deu na eternidade, contudo, tendo por base a fé prevista no homem. Porém, a Bíblia diz que mesmo a fé é fruto da eleição, portanto, não pode ser causa dela: Atos 13.48; Efésios 2.8-10; etc

2º) A TOTAL DEPRAVAÇÃO DA HUMANIDADE

A Bíblia nos ensina claramente que o homem, devido a Queda, está morto espiritualmente. O Calvinismo, ao aceitar a total depravação da humanidade, simplesmente leva a sério esse fato: o homem não regenerado está morto!

Estando morto, tudo o que o homem pode produzir por si mesmo é o fruto de sua natureza caída: “Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura” (Marcos 7.21,22).

Estando morto, nenhum homem pode de si mesmo, buscar sinceramente pelas coisas de Deus: “O SENHOR olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um”(Salmos 14.2,3). Na verdade, o homem não regenerado sequer pode sequer compreender as coisas de Deus: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (I Coríntios 2.14).

Portanto, não é de se estranhar Paulo dizer que o homem natural não é , e nem pode ser sujeito à vontade de Deus (Romanos 8.7,8).

Todavia, alguns dizem que o homem, mesmo depois da Queda, manteve intacta uma capacidade fundamental para a sua salvação: [i] a capacidade de escolher o bem espiritual [/i]. Mas, ao se afirmar tal coisa, mesmo que sem querer, eles negam o que a Bíblia ensina sobre a total incapacidade do homem em fazer a vontade de Deus!

No mais, se conceito tão positivo sobre a liberdade humana quanto a salvação estiver correto, devemos concluir o seguinte: que faz o salvo diferente do não-salvo é o seu próprio mérito: o salvo foi mais sábio; foi mais rápido no entendimento; foi mais receptivo; foi mais maleável a ação do Espírito. Ou seja, a diferença está em algo bom no próprio homem.

Este conceito positivo sobre o homem pecador pode ser visto, por exemplo, na analogia do Sol que diversos arminianos usam. Em um livro publicado pela CPAD, o encontramos com as seguintes palavras:

“O Sol, pelo seu calor, torna a cera mole e o barro duro, endurecendo um, amolecendo outro, produzindo pela mesma ação resultados contrários. Assim, a longaminidade de Deus faz bem a alguns e mal a outros; alguns são amolecidos e outros endurecidos. Contudo, cremos que esse amolecimento ou esse endurecimento vêm daquilo que o homem apresenta a Deus: um coração contrito, ou orgulhoso”. – A Bíblia Responde; CPAD.

Em outras palavras, tudo depende do que o homem morto faz para Deus. Assim, admite-se que o homem morto possa fazer algo bom para Deus: como, por exemplo, ter um coração quebrantado para lhe apresentar!

Este conceito é um erro. Paulo diz que os crentes eram exatamente iguais aos incrédulos; não havia nada neles mesmos que os tornasse diferentes. No entanto, certamente algo os fez diferentes! Mas o que teria sido? Paulo responde:

“Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. MAS DEUS, QUE É RIQUÍSSIMO EM MISERICÓRDIA, PELO SEU MUITO AMOR COM QUE NOS AMOU, Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” – Efésios 2.3-5.

Por qual razão os crentes deixaram a sepultura espiritual de Adão e passaram a viver com Cristo? Porque são alvos de um amor especial de Deus! Este é o ensino claro do apóstolo Paulo: “Mas Deus que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas…”. Os mortos não podem fazer nada, a menos que Cristo lhe chame para a vida: “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão!” (João 5.24).

3º) A GRAÇA EFICAZ

Algumas pessoas imaginam que o Espírito Santo chama de maneira igual a todas as pessoas; mas isso não é verdade. Há um chamado que se restringe apenas aos eleitos: “E aos que predestinou, a estes também chamou!” (Romanos 8.30).

Por “Graça Eficaz” nos referimos àquela certeza bíblica de que os eleitos do Senhor certamente irão responder positivamente ao chamado do Evangelho: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem” (João 10.27). Com isso, não queremos dizer que um eleito seja salvo na primeira pregação que ouve, mas sim, que mesmo que haja um longo e duro processo, ele se renderá aos pés do Senhor: “E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões. E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer” (Atos 9.3-6).

Alguns textos para consideração adicionais: João 6.37; João 5.21; João 10.16; Romanos 8.29-30; Atos 13.48; Efésios 1.18-20; I Cor. 4.7.

4º) A EXPIAÇÃO DEFINIDA

Apesar de aparentemente complicada, esta doutrina é de mui fácil assimilação. O mais importante aqui é saber exatamente qual o significado da morte do Senhor Jesus Cristo. Pode parecer tolice, porém, a maioria dos cristãos atuais possui apenas uma novação vaga do significado da morte de Cristo, como demonstraremos daqui a pouco.

Como sabemos, o Senhor Jesus Cristo é o “Cordeiro de Deus”. Esta expressão é análoga ao sacrifício de expiação realizado no Antigo Testamento. Segundo o preceito de Deus, o pecador apresentava um animal inocente diante do altar e o sacrificava. Deus, por sua vez, aceitava aquele sacrifício como pagamento pelo pecado; de modo que o pecador estava livre de sua justa condenação. Este ritual se denomina “expiação”; ou seja, o sangue do animal inocente “cobria” o pecado do transgressor.

Sendo Jesus o “Cordeiro de Deus”, estabelece-se o fato de que sua morte é uma morte expiatória; ou seja, trata-se de uma morte substutiva. Em outras palavras, “ao invés de requerer nossa própria morte, Deus enviou Jesus Cristo para pagar por nossos pecados, levando a nossa culpa e morrendo na cruz em nosso lugar”.– Vicente Cheung; Teologia Sistemática; monergismo.com.

De fato, quando o Senhor Jesus morreu, a Bíblia nos diz que Ele se sacrificou a fim de retirar nossos pecados: “Assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para a salvação”(Hebreus 9.28). Por isso, Hebreus 9-10 nos mostra que a morte de Cristo foi VICÁRIA, SUBSTUTÍVA e PROPICIATÓRIA.

Quando se fala em “propiciação” – tornar propicio; tornar aceitável – significa que Cristo aplacou completamente a Ira de Deus; ou seja, Deus aceitou o pagamento realizado por Cristo:

“Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3.24-26).

“Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” (Hebreus 2.17).

“Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados” (1 João 4.10).

Se tal descrição da morte de Cristo é verdadeira, e é, pois quem a fez é a Bíblia Sagrada; compreendemos que em sua morte Cristo reconciliou com Deus aqueles que foram alvo de seu sacrifico, eliminando completamente a inimizade de outrora:

“Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Romanos 5.10).

E com isso também os redimiu da maldição da Lei:

“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gálatas 3.13).

Você concorda com esta definição sobre o significado da morte de Cristo? Se a sua resposta for “sim”, então precisas aceitar o fato de que Morte de Cristo foi “definida”, ou seja, apenas em favor dos eleitos.

Ora, se você aceita como fato Deus ter enviado Jesus para pagar por nossos pecados, levando a nossa culpa e morrendo na cruz em nosso lugar, e ao mesmo tempo defende a idéia que Jesus morreu em favor de cada indivíduo da face da terra, a sua teologia é incoerente. Se Jesus pagou o preço pelos pecados de todos os seres humanos, então, não é óbvio concluir que a dívida de todos os seres humanos está quitada? Não foi exatamente isto que Jesus fez na cruz: pagar completamente a dívida do pecador? E, se a dívida de todos os seres humanos está quitada, não é óbvio concluir que todos serão salvos?

A resposta mais comum a estas questões fundamentais é mais ou menos como se segue: “Bem, Jesus de fato pagou a dívida de todos os homens, porém, eles precisam tomar posse deste pagamento!” – responde o arminiano. Mas, o problema é que esta resposta, aparentemente piedosa, joga seu defensor em alguns problemas insolúveis. Citemos alguns:

a) Se isso for verdade, então na Cruz do Calvário, o Senhor Jesus não salvou ninguém, tudo o que fez foi tornar a salvação possível e, se alguém deseja ser salvo, que faça por merecer!

b) Se isso for verdade, então Deus ao mandar alguém para a condenação eterna, está na verdade COBRANDO DUAS VEZES A MESMA DÍVIDA; uma vez que o fato de alguém não “receber a benção” não mudar o fato de Deus aceitou o sacrifício de Cristo em relação a todas as pessoas.

c) Se isso for verdade, então Jesus tentou salvar a todos e conseguiu salvar apenas alguns; não podendo, portanto, ser dito que cumpriu totalmente a sua vontade. Se sua vontade na Cruz era salvar a todos os homens, então, sua vontade não foi feita.

A luz do Novo Testamento isso não faz sentido: a obra de Cristo foi completa e definida – Ele sabia exatamente por quem, e com qual objetivo, estava morrendo (João 6.37-40; Mateus 1.21; João 10.15,26; João 15,13; Atos 10.28; Efésios 5.25).



“Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados”– 1 João 4.10.

5º) A PRESERVAÇÃO DOS SANTOS

Gosto muito da forma como Edwin H. Palmer define esta doutrina: “Em outras palavras, perseverança dos santos significa segurança eterna. A pessoa que coloca sinceramente sua confiança em Cristo como seu salvador, está segura nos braços de Jesus. Está a salvo. Nada a pode ferir. Irá ao céu. E assim será por toda a eternidade. Está segura para sempre, não só por um tempo. Está eternamente segura!” – Doutrinas Chaves; Felire.

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16).

“Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” (João 3.36).

“Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5.24).

“Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna, e para que creiais no nome do Filho de Deus” (1 João 5.13).

“Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes . As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim. Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas , como já vo-lo tenho dito. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai” (João 10.25-29).

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” – Efésios 1.13,14.

Conclusão:
Amados, como escreveu Spurgeon em seu sermão “Eleição e Chamamento”; precisamos atentar para o fato de que: [i] “O grande livro dos decretos de Deus está firmemente fechado para a curiosidade do homem” [/i]. Ou seja, sempre termos diante de nós elementos que Deus não quis nos revelar nas Sagradas Escrituras, e quanto a eles, nos calamos, ou humildemente conjeturamos, sem dogmatizar.

Este é o problema dos chamados “hipercalvinistas”. São aqueles que dizem: “Ora, se Deus elegeu alguém para ser salvo, então, não preciso evangelizar e nem pregar – ele será salvo”. Acontece que o mandamento de Deus é pregar e evangelizar. E uma vez que não conhecemos quem são os eleitos antes do Espírito Santo operar em seus corações, não faz o menor sentido se recusar a anunciar a todos o Evangelho da Graça de Deus.



Paz e Bem

Para quê novas Revelações?

A Infalibilidade da Escrituras
Por Vicent Cheung
A infalibilidade bíblica acompanha necessariamente a inspiração e a unidade da Escritura. A Bíblia não contém erro algum; ela está correta em tudo o que declara. Visto que Deus não mente nem erra, e que a Bíblia é a sua palavra, segue-se que tudo que nela está escrito tem que ser verdade. Jesus disse, “a Escritura não pode ser anulada” (João 10:35), e que “é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til da lei” (Lucas 16:17).

A INFALIBILIDADE da Escritura se refere a uma incapacidade para errar — a Bíblia não podeerrar. INERRÂNCIA, por outro lado, enfatiza que a Bíblia não erra. A primeira faz alusão ao potencial, enquanto a última se dirige ao real estado de coisas. Estritamente falando,infalibilidade é a palavra mais forte, e ela acarreta necessariamente a inerrância, mas algumas vezes as duas são intercambiáveis no uso.

É possível alguém ser falível, mas produzir um texto que esteja livre de erro. Pessoas que são capazes de cometer enganos, apesar de tudo, não erram constantemente.

Contudo, há aqueles que rejeitam a doutrina da inerrância, mas ao mesmo tempo desejam afirmar a perfeição de Deus e a Bíblia como a sua palavra, e como resultado, mantém a impossível posição de que a Bíblia é deveras infalível, mas contendo erros.

Algumas vezes, o que eles querem dizer é que a Bíblia é infalível num sentido, talvez no que se relaciona às coisas espirituais, enquanto que contém erros em outro sentido, talvez no que toca aos acontecimentos históricos.

Contudo, as afirmações bíblicas sobre as coisas espirituais estão inseparavelmente unidas às declarações bíblicas sobre a história, de forma que é impossível afirmar uma enquanto se rejeita a outra. Por exemplo, ninguém pode separar o que a Escritura diz sobre a ressurreição como um evento histórico e o que ela diz sobre seu significado espiritual. Se a ressurreição não aconteceu como a Bíblia diz, o que ela diz sobre seu significado espiritual não pode ser verdade.

O desafio para aqueles que rejeitam a infalibilidade e a inerrância bíblica é que eles não têm nenhum princípio epistemológico autorizado pelo qual possam julgar uma parte da Escritura como sendo acurada e outra não. Visto que a Escritura é a única fonte objetiva de informação a partir da qual todo o sistema cristão é construído, alguém que considere qualquer porção ou aspecto da Escritura como falível ou contendo erros deve rejeitar todo o cristianismo. Novamente, esse é o porquê de não haver um princípio epistemológico mais alto para julgar uma parte da Escritura como sendo correta e outra errada.

Não se pode questionar ou rejeitar a autoridade última de um sistema de pensamento e ainda reivindicar lealdade a ele, visto que a autoridade última em qualquer sistema define o sistema inteiro. Uma vez que uma pessoa questiona ou rejeita a autoridade última de um sistema, ele não é mais um adepto dele, pelo contrário, é alguém que adere ao princípio ou autoridade pelo qual ele questiona ou rejeita a autoridade última do sistema, a qual acabou de deixar para trás. Ter uma outra autoridade última além da Escritura é rejeitá-la, visto que a própria Bíblia reivindica infalibilidade e supremacia.

Alguém que rejeita a infalibilidade e a inerrância bíblica assume a posição intelectual de um incrédulo, e deve prosseguir para defender e justificar sua cosmovisão pessoal contra os argumentos dos crentes a favor da veracidade da fé cristã.

A confusão permeia o estado psicológico prevalecente no meio teológico de hoje; logo, é melhor afirmar tanto a infalibilidade como a inerrância bíblica, e explicar o que queremos dizer com esses termos. Deus é infalível, e visto que a Bíblia é a sua palavra, ela não pode ter e não contém nenhum erro. Nós afirmamos que a Bíblia é infalível em todo sentido do termo, e, portanto, ela deve ser também inerrante em todo sentido do termo. A Bíblia não pode e não contém erros, seja falando de coisas espirituais, históricas ou de outros assuntos. Ela é correta em tudo o que afirma.

Fonte: Fé Reformada

Você Prega Sempre a Salvação?

A salvação é uma doutrina peculiar da Revelação. A Revelação nos proporciona uma história completa da salvação, e não poderíamos encontrar indícios da salvação em outro lugar. Deus escreveu muitos livros, porém, apenas um de Seus Livros tem como objetivo ensinar os Caminhos da Misericórdia. Ele escreveu o grandioso Livro da Criação, que é nosso dever ler admirados. Trata-se de um volume com uma capa decorada com joiás reluzentes, e com cores do arco-íris; e em suas páginas possui maravilhas que exatasiam o sábio ao longo de todos os séculos, e das quais obteve renovados temas para suas conjecturas. A natureza é o professor com o qual o homem aprende a ler, e onde aprende acerca de seu Criador. O Criador a decorou com bordados, com ouro e com joias.


C. H. Spurgeon
Encontramos doutrinas sobre a verdade nas incontáveis estrelas, e descobrimos lições escritas sobre a terra verde, e nas flores que brotam em meio ao cipestre. Lemos os livros de Deus quando vemos a tormenta e a tempestade, pois todas as coisas nos transmitem uma mensajem de Deus; e se nossos ouvidos estivessem abertos, poderíamos ouvir a voz de Deus nas ondas dos riachos, e no soar dos trovões, e nos estalido dos raios, no tilitar das estrelas, e no brotar das flores… Deus tem escrito o grandioso Livro da Criação, para nos ensinar a conhecê-lo: quão grande és! E quão poderoso!

Porém, na criação não posso ler a respeito da Salvação. As letras me dizem: “a salvação não está aqui”. Os ventos uivam, todavia, não anunciam Salvação. As ondam quebram na costa, porém, entre os restos dos naufrágios que chegam a praia, não se mostra nenhum vestigio da Salvação. As insondáveis cavernas do ocenano escondem pérolas, porém, não são as pérolas da Salvação. Os céus, cheios de estrelas, possuem meteóros fulgurantes, porém, não falam de Salvação!

Não encontro que a salvação esteja escrita em parte alguma. Apenas Neste Volume de graça de meu Pai, [A Bíblia] descubro Seu amor bendito manifesto a toda a grande família humana, ensinando-lhe que está perdia, todavia, que Ele pode salva-la, e que ao salvá-la, “é Justo, e o que justifica o ímpio”. Então, a Salvação se descobre nas Escrituras, e unicamene nas Escrituras, pois não podemos ler nada acerca da Salvação em qualquer outro lugar!

E, como somente podemos encontrá-la na Escritura, eu sutento que a doutrina peculiar da Revelação é a Salvação. Não creio que a Bíblia tenha sido inspirada para me ensinar acerca de História, antes, para me revelar a Graça. Não foi revelada para me dar um sistema de filosogia, antes, para me entregar um sistema de teologia. Não foi dada para me ensinar sabedoria mundana, antes, sabedoria espiritual.

Por tal razão, eu sustento que toda pregação sobre filosofia e ciência, está completamente fora de lugar. Não pretendo reprimir a liberdade de ninguém quanto a este assunto, pois unicamente Deus é o Juiz da consciência do homem; porém, sou da firme opinião que se professamos ser cristãos; se professamos ser ministros cristãos, e todavia oferecemos conferencias sobre botânica, ou geologia – ao inves de pregar sermões a respeito da salvação, estariamos despedicando o dia do Senhor, estaríamos zombando de nossos ouvintes, e insultando a Deus. Aquele que não predica sempre o Evangelho, não deveria ser considerado um ministro com um chamado verdadeiro.

[Traduzido por Marcelo Lemos, para o projeto "Olhar Reformado"]

Publicado em Pregação & Homilética, TODOS OS ARTIGOS, Vida Cristã

Jesus virá em breve. Sim ou não?

Fazer uma afirmação destas pode causar alguns anticorpos e reacções extemporâneas de repúdio e reprovação. Como defensores da verdade, os cristãos não devem ter frases feitas que não se fundamentem absolutamente na revelação bíblica.

Cresci no meio cristãos com esta expectativa sempre presente, com todos os defeitos e problemas, que causava á socialização e formas de encarar o dia a dia. Todo o esforço estava centrado em evangelizar o maior número de pessoas no mais curto espaço de tempo, até porque o tempo estava a esgotar-se, os “sinais” eram por demais evidentes, a vinda do Senhor Jesus estava próxima e podia dar-se a qualquer momento. Construir um futuro, pensar em planos a médio e longo prazo era considerado inútil e até pouco espiritual, pois era tudo uma questão de meses, dias ou horas para se dar o “arrebatamento secreto”. Toda a construção teológica, antropológica, social e até eclesiástica estava assente nesta construção psicológica que tudo era perene e a qualquer momento se iria deteorar desaparecendo para sempre o nosso modo de vida actual.

A base bíblica para esta ideia é bem conhecida pela citação constante de algumas afirmações da escritura que dizem o que dizem mas nunca o que nos querem fazer crer que dizem. Ap.22.7,12 e 20 “Eis que (certamente) cedo venho” O livro da Revelação deixa esta afirmação enfática e clara, Jesus promete vir no mais breve curto espaço de tempo, referido aqui pela expressão “cedo”. Kenneth L. Gentry Jr. Define esta palavra com o significado de: “Rápidamente”, “depressa”, “imediato” “agora”.

Se Jesus está a deixar este aviso tão sério aos seus primeiros ouvintes, não será o mais correcto aplicar este sentido de cedo, para cada época ou tempo que nos pareça mais apropriado. Antes pelo contrário, devemos perceber em primeiro lugar, a quem estava esta carta sendo dirigida e quem o primeiro público alvo que foi destinada.

Não será muito honesto a apropriação da frase e aplica-la consoante o interesse de cada um ao momento que lhe parece mais sugestivo.

Jesus escreveu primariamente para os cristãos de sete igrejas da Ásia próximo do ano 70, preparando-os para as coisas que brevemente devem acontecer. (Ap.1.1.).

Todo o teor desta carta deve subscrever-se à intenção original do autor, tanto em temporalidade como geográfico.

Afinal a minha afirmação inicial não será assim tão descabida quando a colocamos na análise critica da revelação bíblica, em contraste com alguma tradição recente que nos quer fazer crer numa vinda eminente de Jesus cíclica em todas as décadas desde à século e meio para cá.

Creio que Jesus voltará para a sua igreja, será o momento mais importante da História depois da sua primeira vinda na “plenitude dos tempos”. Mas quando se referiu à sua vinda “breve” não estava a prometer ou a exigir que em todas as épocas os cristãos vivam manietados com uma inquietação de não poder desenvolver uma perspectiva transgeracional da implantação do reino de Deus na terra, porque não há tempo, tudo tem de ser feito com urgência e não vale a pena investir em projectos de longo tempo; porque a sua vinda está para breve.

Este é o meu ponto principal; uma expectativa errada causa motivações erradas e interfere com tudo o que estamos a construir para o futuro. Cristãos que aguardam a eminência da vinda de Jesus a todo o momento não constroem um futuro, não semeiam com esperança e vivem sempre em sobressaltos.

O mundo precisa de nós! Da nossa influência, da nossa esperança, do nosso investimento nas gerações seguintes, de todo o envolvimento para mudar e transformar o que está mal em bem. Só quem crê que há tempo para tal se envolve de corpo e alma na tarefa árdua de contrariar o “status quo” e remar contra a cultura corrente de superficialidade que caracteriza a geração actual.

Um cristão que crê que Jesus ainda demorará algum tempo para vir, está melhor preparado para cumprir tal tarefa fundamental nos dias actuais.

Jesus não vem em breve é uma mensagem fundamental para mudar a mentalidade cristã, tornando-a mais saudável e apta para os desafios contemporâneos.

Bem-haja!

Fonte: http://www.preterismo.org/voltaraembreve.html

Ditadura Gaysista

Desde 1998, quando seu livro O movimento homossexual foi lançado pela Editora Betânia, Julio Severo começou a chamar a atenção. Ele se posiciona como um crítico ferrenho do comportamento gay, que combate com argumentos religiosos, sociológicos e políticos. Diferentemente de outros cristãos, que fazem da própria trajetória a motivação para sua militância, Severo, de 43 anos, garante que nunca teve qualquer envolvimento com a homossexualidade – é casado e pai de três filhos – e se diz um ativista pró-família, chamado para salvar o Brasil de uma “ditadura homossexual”. Segundo o próprio, a atividade tem lhe causado muitas dores de cabeça: “Sou alvo de todo tipo de ataque. Ameaças, xingamentos”.

O blog que mantém, e que é o principal veículo de divulgação de suas ideias, já chegou a ser tirado do ar a partir de denúncias de entidades de defesa dos direitos da comunidade gay, que o acusam de homofóbico. Severo diz que a pressão foi tanta que ele teve que deixar o Brasil no fim de março. Ele não revela o lugar onde está de jeito nenhum. “Seria perigoso para mim e para minha família”, justifica. Lá, afirma que tem frequentado uma igreja “muito humilde” e se mantido graças à ajuda que recebe de colaboradores e instituições que o apoiam.

Severo é daqueles crentes quixotescos, disposto a lutar contra moinhos que talvez só ele consiga enxergar. Nas suas palavras, até mesmo o governo brasileiro teria interesse em pedir sua deportação por conta das críticas que faz a Luiz Inácio Lula da Silva. “O presidente faz defesa intransigente do homossexualismo e do aborto. Quanto ainda falta para considerarmos Lula e seu governo como possessos? Ele está acabando com a moralidade e a honestidade da sociedade”, dispara. O tom histriônico dá ao perfil de Julio Severo um contorno incendiário que ele faz questão de alimentar, e não apenas quando fala da homossexualidade. Ele defende, por exemplo, o direito de os pais crentes educarem seus filhos em casa (prática proibida pela legislação brasileira) como forma de mantê-los a salvo de supostas influências perniciosas da escola. Além disso, diz que o casamento é a solução contra a promiscuidade sexual entre os jovens evangélicos. “Querem sexo? Então, que se casem”, prega Severo, para quem as famílias não deveriam estimular seus filhos a postergar o matrimônio em busca de qualificação educacional e profissional, e sim, fazer justamente o contrário. É provável que poucos crentes concordem com ele, mas Severo avisa: “Quando meu livro foi publicado, muitos o acharam exagerado. Quem leu, hoje me chama de profeta.”

CRISTIANISMO HOJE – Que tipo de ameaças o senhor recebeu por conta de sua militância contra a homossexualidade e que o obrigaram a deixar o país?

JULIO SEVERO – Precisei sair do país depois que procuradores federais, numa atitude abusiva, intimaram um amigo meu a revelar minha localização. A alegação deles é que havia uma queixa de homofobia registrada contra mim em 2006 [N.da Redação: Procedimento Administrativo Cível nº 1.34.001.006020/2006-44, aberto a pedido da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais, a ABGLT ]. Sou alvo de outros tipos de ataques. Ameaças, xingamentos. Em julho de 2007, meu blog foi fechado pelo Google depois de uma longa campanha de denúncias de ativistas homossexuais. Graças à intervenção de advogados evangélicos e de um procurador, o Google liberou meu blog, entendendo que meu direito de livre expressão estava sendo violado. Tempos atrás, interceptei uma mensagem do líder máximo do movimento homossexual brasileiro, Luiz Mott, direcionada a outros dirigentes gays, onde havia o pedido para que se levantasse a meu respeito informações pessoais, como nome completo, endereço, fotos, histórico etc. Regularmente, aparecem páginas na web com conteúdo de pornografia homossexual contendo meu nome, como se eu estivesse ligado a tais obscenidades. Um conhecido site esquerdista chegou a publicar uma entrevista forjada, onde um falso “Julio Severo” se confessa um homossexual promíscuo.

Quando o senhor saiu do Brasil?

Saí no fim de março deste ano.

Onde o senhor está atualmente?

Não posso revelar o lugar por motivo de segurança para mim e minha família.

Qual tem sido sua atividade e o que o senhor está fazendo para se manter?

Minha atividade aqui é exatamente a mesma que desenvolvia no Brasil: alertar, informar e conscientizar a sociedade através do meu blog. Não vou abandonar minhas responsabilidades para com o Brasil. Meu sustento atual está vindo da colaboração voluntária dos leitores e admiradores do meu trabalho.

Com base em qual instrumento legal o senhor tem sido denunciado?

Na base da pura truculência estatal. A Visão Nacional para a Consciência Cristã (Vinacc) teve seu direito de livre expressão totalmente violado numa campanha de defesa da família, pois sob pressão de ativistas gays e do governo federal, uma juíza acolheu uma queixa de homofobia contra a entidade. A Vinacc foi obrigada a remover seus outdoors, com mensagens como “Homossexualismo: E Deus os criou homem e mulher e viu que isso era bom”. Essa simples declaração foi considerada criminosa e homofóbica.

E como está a ação movida pela ABGLT?

Não sei. Pelo tempo que já passou, considero essa ameaça sem efeito. Foi o que fiz também em 2006, quando recebi um e-mail da Associação da Parada do Orgulho Gay de São Paulo, dizendo que estavam entrando com queixa contra mim no Ministério Público Federal [MPF]. Não dei atenção, pois recebo muitas ameaças. Em maio de 2008, Luiz Mott declarou publicamente que entraria com queixas contra mim no MPF e outros órgãos. Depois da nossa saída do Brasil, sei que o MPF do Rio Grande do Sul pediu o arquivamento do caso, o que será decidido pela Procuradoria Federal paulista, de onde a ação é originária.

Por que o senhor começou sua militância nesta área? Já teve algum envolvimento homossexual?

Eu nunca fui homossexual. No começo de 1995, senti claramente Deus me dirigindo a escrever um livro sobre a ameaça do movimento homossexual. Durante algumas semanas, hesitei, pois o tema era um tabu enorme. Não havia paradas gays, nem a obsessão homossexual que vemos hoje na mídia, nas escolas e em outros segmentos. Depois de algum tempo, venci meus temores e aceitei o chamado do Espírito Santo, começando a pesquisar sobre o movimento homossexual. Quando, em meados de 1995, ocorreu no Brasil a primeira conferência internacional da ILGA [International Lesbian and Gay Association] no Hemisfério Sul, entendi a intenção divina de me chamar para o combate, pois depois daquele evento os grupos gays brasileiros ganharam um impulso extraordinário. Foi assim que nasceu meu livro O movimento homossexual.

Muitos de seus detratores o chamam de radical. O senhor se considera um fundamentalista?

Sou apenas um servo de Deus, radicalmente apaixonado por Jesus. Muitas igrejas do Brasil, tanto evangélicas quanto católicas, estão comprometidas com a esquerda, e é natural que queiram tachar de radical quem ouse pensar diferente da ideologia predominante na sociedade e nas igrejas. Quanto às designações, no final vai valer somente o que Deus disser. Por isso, minha meta é agradar a Deus.

Embora desagrade à Igreja, a regulamentação da união civil entre homossexuais ganha força em todo o país, já que os tribunais têm não apenas reconhecido os direitos decorrentes das uniões homoafetivas, como também concedido aos parceiros gays o direito à adoção de filhos na condição de “dois pais” ou “duas mães”. Em um Estado democrático de Direito, o segmento religioso tem legitimidade para interferir na vida em sociedade?

Em um legítimo Estado democrático de Direito, a família natural e seus interesses são respeitados e protegidos acima de todo e qualquer interesse de outros grupos. O que a falsa democracia brasileira quer impor é a descaracterização da família e sua importância, colocando como prioridade um comportamento sexual antinatural que nenhuma função tem para a preservação da espécie humana ou para a estabilidade da família. Do ponto de vista natural, a homossexualidade é uma das maiores aberrações e ameaças à família natural. Ora, a sociedade é dividida em diferentes segmentos ideológicos. Há o segmento que tem ideologias religiosas e o segmento que tem a ideologia homossexual. Se a maioria religiosa não tem o direito de impor sobre a sociedade seus valores, que direito tem então a minoria homossexual de fazê-lo? Do ponto de vista da democracia tradicional, é ditatorial submeter a vontade da maioria à de uma minoria. Só uma democracia deturpada permitiria tal medida.

O aborto é outro tema importante na atual agenda pol´tica brasileira. Setores do governo, do Poder Legislativo e da sociedade defendem a ampliação de sua legalidade, hoje restrita aos casos em que a gravidez ameaça a vida da mãe ou é originada de estupro. O que o senhor pensa a respeito?

Acho o aborto um problema muitíssimo importante, pois envolve o sacrifício de inocentes. A legalização do aborto faz parte de um projeto das trevas para expandir a atividade demoníaca na sociedade, com suas consequentes devastações. As igrejas evangélicas, de forma geral, estão em cima do muro. Igrejas como a Universal, que apoiam o aborto, se descaracterizam completamente como entidades cristãs. Uma cultura que desvaloriza crianças – e temos de reconhecer que a atual cultura é fundamentalmente contraceptiva – fatalmente valoriza o aborto. Ao invés de confrontar essa cultura, tudo o que as igrejas têm conseguido fazer é se adaptar. É uma apostasia que começou na área sexual, afetou o casamento e a família e agora atinge em cheio os púlpitos, tornando as igrejas cristãs e suas mensagens quase que socialmente insignificantes.

Falta conscientização política e social aos pastores brasileiros?

Muitos pastores desconhecem os embates culturais e preferem não se envolver na política, por causa da corrupção presente até mesmo entre políticos evangélicos. A esquerda evangélica hoje detém quase que exclusivamente o monopólio da tal “conscientização política e social”. Daí, quando se fala em ação política ou social evangélica, a primeira imagem que vem à mente do público cristão é a imagem de igrejas e grupos religiosos atuando como se fossem meros braços assistencialistas do Estado socialista. Essa visão deformada é praticamente a única que os evangélicos do Brasil têm de “ação social”. Falta uma visão genuína de Reino de Deus para a atuação dos evangélicos na política brasileira.

O combate ao sexo pré-conjugal é uma de suas bandeiras, assim como da maioria das igrejas evangélicas. Como convencer o jovem cristão a manter a castidade num mundo que enfatiza o prazer e o descompromisso das relações?

O tipo de castidade que as igrejas evangélicas hoje defendem é impossível, pois requer dos jovens abstinência sexual, mas não propõem casamento quando seus impulsos exigem satisfação a todo custo. O adolescente evangélico vai à escola, onde recebe doutrinação estatal para fazer sexo de todas as formas possíveis; vê seus amigos namorando e fazendo sexo; o que ele acaba fazendo? Para piorar, as igrejas e as famílias dizem ao adolescente e ao jovem que reprima suas tentações e não pense em casamento até acabar os estudos. O resultado é que acontece hoje entre os jovens evangélicos exatamente o que está acontecendo entre os jovens não-cristãos: sexo promíscuo. Num tempo de suas vidas em que a prioridade de seus sentimentos está voltada ao sexo, as pressões principais sobre os jovens — vinda dos pais, dos amigos e das igrejas — colocam o casamento em último plano. Falta muita valorização do casamento e família para os jovens.

O senhor não acha mais sensato orientar os jovens a priorizar o preparo intelectual e profissional visando ao seu futuro?

A Bíblia nos instrui: é melhor casar do que abrasar-se. O jovem vive muitas vezes abrasado, pois está cercado de lascívia e prostituição. Por isso, quando o jovem não consegue mais se controlar, é fundamental não pressioná-lo a sacrificar possibilidades de casamento por causa de metas educacionais. De que adianta, do ponto de vista do Reino de Deus, um evangélico ter diploma universitário e um rastro de prostituição ao longo de sua caminhada? Ele terá grandes perdas espirituais e problemas pelo resto da vida, inclusive conjugais, pois sacrificou todos os seus valores em prol da educação. Portanto, se o jovem sente que é hora de casar, em vez de pressioná-lo ao contrário, as famílias evangélicas envolvidas deveriam apoiar e ajudar o moço e a moça a começarem sua vida juntos. Eles precisam se casar.

Não é arriscado apostar num casamento tão prematuro?

O que pude constatar em várias igrejas é que a maioria dos jovens que namoram já está fazendo sexo. Filhos de pastores estão engravidando moças fora do casamento. Filhas de pastores estão tendo bebês sem casar – isso quando não os matam através do aborto. Tudo é sacrificado: bebês, casamento, moral, espiritualidade, comunhão com Deus. Tudo – menos as idolatradas metas educacionais. O caminho certo é encaminhar rapidamente esses jovens ao casamento. Por isso, quando as famílias evangélicas sentem que o rapaz e a moça já estão num namoro, é recomendável ajudar num casamento sem demora. Aliás, o conceito de namoro é uma invenção moderna sem nenhum apoio na Bíblia. Na área sexual e em outras áreas importantes, o que deve haver é compromisso. Não quer casar? Não namore. Quer sexo? Case-se. A cultura do namoro leva menos ao casamento do que ao sexo promíscuo. Só os rapazes e moças que não estão namorando ou não tendo nenhum tipo de relacionamento abrasante é que podem prosseguir com suas metas educacionais. Os outros, para o seu próprio bem-estar físico, moral, espiritual, psicológico e conjugal, precisam se casar o mais cedo possível.

Em seu blog, o senhor fez uma relação de líderes evangélicos que apoiaram ou apoiam o governo Lula, aos quais não poupa críticas. Por quê?

É triste constatar que famosos pastores e outros líderes com forte presença política conhecem os graves problemas do Brasil, mas não assumem uma postura profética de ação e denúncia porque querem aproveitar suas ligações e alianças políticas para avançar em suas ambições pessoais, ministeriais ou denominacionais. A grande tragédia é que, assim como eles usaram Lula, Lula também os usou. Como eles conseguirão denunciar profeticamente a promoção do aborto e do homossexualismo na sociedade brasileira, sabendo que o principal responsável por tal promoção é o “ungido” que eles escolheram para a presidência do Brasil? A maioria dos líderes evangélicos deste país tem grande responsabilidade por tudo o que está acontecendo na sociedade brasileira e um dia darão contas a Deus por terem trocado a fidelidade ao Senhor por ambições e dinheiro. O apoio deles a Lula foi público, de modo que minha exposição do nome deles no meu blog nada mais faz do que tornar público o que já o é. É para que ninguém se esqueça e possa orar por eles – além de perceber que, em questões políticas, os conselhos que dão são inconfiáveis.

O senhor costuma associar o avanço da militância homossexual à ideologia esquerdista e denuncia uma suposta simpatia do governo Lula à causa da homossexualidade. Qual seria a intenção do governo em favorecer os gays?

Quem diz que apoia a agenda gay é o próprio presidente Lula, que declarou recentemente que “setores atrasados” e “hipócritas” têm criticado seu governo por apoiar iniciativas que criminalizam palavras e atos ofensivos à homossexualidade. No início de seu primeiro mandato, em 2003, a equipe diplomática de Lula apresentou na Organização das Nações Unidas e na Organização dos Estados Americanos resolução pioneira, classificando o homossexualismo como direito humano inalienável. No Brasil, há o programa federal Brasil Sem Homofobia, para impor a doutrinação homossexual à sociedade, pois conforme divulgou instituição de pesquisa ligada ao PT [partido do presidente], 99% da população do Brasil não aceita o homossexualismo. E quem é que pode esquecer que Lula declarou que a oposição ao homossexualismo é uma “doença perversa”, convertendo assim a vasta maioria dos brasileiros em “doentes”? Quando um povo não vê a doença moral do seu próprio presidente, o doente é que acabará acusando os sãos de serem doentes! O que faz Lula apoiar tanto o homossexualismo? O mesmo que fazia o rei Acabe do antigo Israel apoiar o homossexualismo inerente ao culto de Baal. Quanto ainda falta para classificarmos Lula e seu governo como possessos? Décadas atrás, quando o Brasil era muito mais católico e conservador do que hoje, Lula seria muito merecidamente enxotado aos pontapés da presidência do Brasil. Hoje, é ele quem está enxotando aos pontapés a moralidade e a honestidade do governo e da sociedade.

Qual o papel da mídia neste processo?

A doutrinação homossexual da mídia é notória e descarada. Homossexuais são falsamente retratados como anjos inocentes e os não-homossexuais como desequilibrados e desajustados. Nas novelas, os parceiros gays são os grandes exemplos de paz e harmonia, enquanto que o casamento normal é apresentado como palco de conflitos, ódio, inveja, traição etc. Quem não se lembra da novela Duas Caras, da Rede Globo, escrita pelo homossexual Aguinaldo Silva, militante de esquerda? Sua obra literalmente pintou os evangélicos como loucos e violentos, enquanto personagens homossexuais promíscuos foram retratados como símbolos de gentileza, educação e comportamento politicamente correto.

O Projeto de Lei 122/2006, que entre outros pontos criminaliza a prática da homofobia no Brasil, tem sido combatido de maneira intensa pelos evangélicos, que identificam no seu conteúdo uma ameaça à liberdade religiosa no país. Contudo, o Artigo 5º da Constituição Federal assegura ampla liberdade de crença e direitos individuais de opinião, inclusive na forma de cláusulas pétreas. Não tem havido muitos exageros nesta questão?

A perseguição aos cristãos alcançou a Alemanha e a Rússia no passado porque os cristãos não souberam reconhecer que, por trás das mentiras e da fachada, o nazismo e o comunismo eram ideologias destrutivas. É sempre assim: o sistema de perseguição entra na sociedade em roupagem elegante, como eram elegantes o nazismo e o comunismo. Depois da lua-de-mel, vem o poço do abismo. O PL 122 é um projeto que mal consegue disfarçar suas más intenções. Quando meu livro foi publicado, muitos o acharam exagerado e disseram que suas previsões nunca ocorreriam. Infelizmente, acabaram ocorrendo. E quem leu hoje me chama de profeta.

Autor: Carlos Fernandes

Fonte: Cristianismo Hoje

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