sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sermão do Missº Veronilton Paz na Igreja Presbiteriana do Brasil em Monteiro


Veredas da Justiça: Sermões que Edificam

TEXTO: ATOS 13.1-3
Barnabé e Saulo são enviados pela igreja de Antioquia. 
[1] Ora, na igreja em Antioquia havia profetas e mestres, a saber: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca, e Saulo. [2] E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. [3] Então, jejuando e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram.

EXÓRDIO:
          Missões está no coração de Deus, Ele foi o primeiro a enviar um missionário e foi seu Filho Unigênito Jesus para salvar os pecadores que crêem Nele (João 3.16). No Antigo Testamento o Senhor tinha um plano para todas as nações, no chamado do crente Abraão a nação de Israel deveria atrair as nações para Ele (Gn 12.3), Israel foi atraído pelas nações e praticou sua idolatria, feitiçaria e prostituição, a chamada missão centrípeta; no Novo Testamento Cristo enviou a igreja atrairia as nações e também sairia ao encontro das nações, na consumação da salvação o apóstolo João viu uma grande multidão de todas as nações. Tribos, povos e raças (Ap 7.9). Toda a Bíblia registra um propósito missionário desde Gênesis a Apocalipse. O ponto culminante nas missões é a pessoa e obra de Cristo (Atos 10.36), no qual todas as pessoas de todos os tempos são salvos por Ele, na velha aliança a salvação era pela expectativa do messias (Lucas 3.15), na Nova Aliança a chegada do messias cumpria todas as promessas dos profetas, salmos e escritos, hoje a pregação não é outra senão Jesus como Senhor e salvador de todas as nações. Nos quatro evangelhos os evangelistas narram a vida e obra de Jesus, Lucas no livro de Atos narra que Ele continuou fazendo por meio da igreja. A igreja já nasce missionária em Pentecostes onde os irmãos falaram línguas de outras nações e assim muitas nações ouviram o evangelho de Cristo (Atos 2.4, 7-11). Hoje somos uma igreja missionária?

NARRAÇÃO:
          Os três primeiros versículos do capitulo treze do livro de Atos dos Apóstolos são um resumo da obra missionária da igreja de     Antioquia, enviando missionários para ir a outras localidades, onde Cristo ainda não fora anunciado, Antioquia foi um centro missionário e gentios vieram ao conhecimento de Cristo por meio da obra daquela igreja (). A igreja de hoje precisa promover missões como a igreja de Antioquia, sendo uma igreja que pregava e vivia o evangelho, pois os discipulos de cristo foram chamados de cristãos pela primeira vez em Antioquia (Atos 11.26), a igreja foi chamada de Católica (universal) também primeiramente em Antioquia pelo Bispo Ignácio da Antioquia segundo relata o livro histórico Didaquê. Esta igreja foi marcante pela sua vivencia cristã. Nós queremos tratar nestes versículos sobre algumas características desta igreja com o tema:

TEMA: CARACTERÍSTICAS DE UMA IGREJA MISSIONÁRIA (ANTIOQUIA)

1.      É UMA IGREJA FERTILIZADA POR DEUS. V.1
“Ora, na igreja em Antioquia havia profetas e mestres, a saber: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca, e Saulo”.

          Esta igreja tinha uma operação gloriosa de Deus nela, havia nela profetas e mestres, por exemplo Simão por sobrenome níger, um homem de pele escura (níger é o termo latino para negro) bem provavelmente da África, ou seja esta igreja era tão fértil que alcançou pessoas fora da sua localidade. Manaém era um cristão que era irmão de criação do Herodes Antipas, ou seja, até no império romano esta igreja entrou com o evangelho de Cristo. Esta igreja tinha ainda dois grandes missionários Saulo e Barnabé que levaram muitos gentios ao conhecimento de Cristo (Atos 13.44-47). A igreja de Cristo precisa evangelizar, a igreja foi criada para crescer e não para estagnar, o problema é que muitas igrejas estão inchando de pecado e carnalidade, enchem templos de pessoas vazias de Deus. Como diz Hernandes Dias Lopes “muitos pregadores estão preocupados mais em entreter bodes do que alimentar ovelhas”. O crescimento da igreja deve ser qualitativo e quantitativo.

2.      É UMA IGREJA QUE SERVE AO SENHOR. V.2a, 3a
“E, servindo eles ao Senhor e jejuando [...]”. “Então, jejuando e orando [...]”.
          O termo “Servindo eles ao Senhor” no termo grego é diakonia e significa serviçal, servo; a igreja de Antioquia era uma igreja de servos, veja que nela havia profetas (grego Kêrysso, pregador), mestres (didakaio, professor, ensinador), mas aqueles homens não se agarravam a seus títulos eclesiásticos para serem reconhecidos como tal, eles simplesmente serviam ao Senhor. Hoje vemos muitos homens usando títulos eclesiásticos, mas seu coração é insensível às almas perdidas que clamam por salvação. Muitas vezes criados elitizados dentro de igrejas e sem nenhuma compaixão pelas pessoas que caminham para o inferno. Muitos estão indo aos seminários para depois de quatro anos ter um emprego garantido, enchem-se de teologia e esquecem de ter um contato direto com a Palavra de Deus. Acham que a piedade é fonte de lucro (I Timóteo 6.5), abrir igrejas é visar lucro e salvação de pessoas. Podem ser teólogos, mestres, mas falta ser servo. Ser servo é imitar Jesus em suas palavras, ações e reações. As palavras de Cristo eram espírito e vida (João 6.63), suas ações tinham íntima compaixão pelos que se perdem (Marcos 8.2). Jesus reagiu à crucificação não dizendo palavras contra os que o pregaram na cruz, mas disse “Pai perdoa porque não sabem o que fazem” (Lucas 23.34). Servir a Deus é buscar parecer com Jesus.
           Eles jejuavam e oravam no seu serviço ao Senhor, isto era para eles não uma programação eclesiástica, mas uma prática diária e costumeira conforme nos apresenta Lucas, o médico amado nas passagens de Atos 2.42, 3.1, 4.24, 6.4, 10.31, 14.23, 28.8.   
A igreja de Antioquia era uma igreja que servia ao Senhor. Nós estamos servindo ao Senhor ou apenas aos nossos próprios desejos e vontades?

3.      É UMA IGREJA CONTROLADA PELO ESPÍRITO SANTO. V.2B
“[...] disse o Espírito Santo: Separai-me, agora Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado”.
          Naquela igreja o Espírito Santo dava as ordens e eles obedeciam, Ele determinou quais eram os missionários que queria na sua obra. O Espírito Santo é soberano em suas ações e a nós resta obedecer. Ele é quem chama os missionários para sua obra, mas muitas vezes a escolha de missionários, presbíteros, diáconos é ditado pela política eclesiástica, aqueles que concordam comigo eu dou tudo, aos que discordam de mim não dou nada e ainda persigo. Isto é o efeito de uma igreja que não está cheia, nem andando no Espírito. Muitas vezes o Espírito Santo quer usar alguém na igreja e nós tentamos atrapalhar aquela pessoa para que não cresça. Conta-se uma história de um homem chamado Joaquim, crente e não sabia ler, tinha vontade de pregar, evangelizar, no evangelismo, todos, inclusive o pastor sempre dava um jeito de colocar ele com alguém que sabia que não ia deixá-lo falar. Em um evangelismo intensivo numa cidade vizinha, seu Joaquim foi o primeiro a chegar para pegar o carro que levava os irmãos a localidade do evangelismo. Ao separar as duplas colocou o irmão com um professor que não deixava seu Joaquim falar e nem orar. Na hora do almoço seu Joaquim saiu escondido e foi evangelizar sozinho, encontrou a casa de um médico chamado Dr. Carlos Aires, pediu para entrar e começou a falar sobre Jesus, o doutor chamou a esposa e filhos para ouvirem o irmão falar, ao sair convidou-os para o culto na Escola em frente. No culto estava lá o médico e sua família, procuraram o pastor e disseram que queriam entregar-se a Cristo. O pastor querendo fazer a média perguntou qual a parte da mensagem que lhes tocou, eles responderam que o que tocou eles foram as palavras de um senhor chamado seu Joaquim, aquele pastor arrogante fica envergonhado de ter tentado impedir por tanto tempo um homem de falar de Jesus. O Espírito Santo sopra onde quer (João 3.8). O Espírito Santo age como quer, onde quer e usa quem ele quer usar. Como diz o Rev. Jeremias Pereira “Deus usou a mula de Balaão e continua a usar qualquer cavalo da vida”. Não queira fazer a missão do Espírito Santo, Ele sabe fazer bem feito.
     
4.      É UMA IGREJA QUE IMPULSIONA SEUS FILHOS À SAIR DAS QUATRO PAREDES E FAZER MISSÕES. V.3b
“[...] e impondo sobre eles as mãos, os despediram”.
          A igreja impôs as mãos sobre Saulo e Barnabé e os despediram para a missão que iriam realizar, ou seja, saíram do conforto de uma igreja já formada para irem em busca de almas perdidas e pregar-lhes o caminho da salvação, o Senhor Jesus Cristo. A imposição de mãos foi uma certificação oficial que estavam separados pelo Espírito Santo para a obra. Nós oramos “venha o teu Reino”, mas muitas vezes não impulsionamos os membros da igreja para evangelizar, que é um dos sinais da sua vinda quando o evangelho chegar a todas as nações. Na grande comissão Jesus disse “Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações [...]”, mas não saímos nem para o Serrote, Tingui, Sumé, deixamos de ir pregar, evangelizar, para ver futebol, novela, Faustão, Formula 1, bater papo na internet. E AINDA DIZEMOS QUE O REINO DE DEUS É PRIORIDADE PARA NÓS!. Pagamos ingresso para ver um cantor evangélico e não temos coragem de enviar um centavo para a obra missionária. E AINDA DIZEMOS QUE PRIORIZAMOS O REINO DE DEUS! A igreja tem impulsionado seus membros a sair das quatro paredes para evangelizar? Para os membros saírem para evangelizar, a liderança precisa dá exemplo, pois como podemos cobrar dos membros para saírem das quatro paredes, se a liderança não evangeliza, não sai para pregar o evangelho. Precisamos sair das quatro paredes. A ordem não é da Igreja Presbiteriana do Brasil, é de Jesus! “Ide e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16.15). Muitas vezes as igrejas estão é incentivando os jovens a se acomodarem, na minha época de mocidade, eu me converti no sábado 11/05/1996 e no domingo já estava evangelizando com a mocidade, nossas programações era igual mesa de rico, tinha de tudo um pouco, lazer, sociais, intercâmbios com outras mocidades, nós apesar de solteiros, éramos ocupado, pois estudávamos, trabalhávamos e mesmo assim conseguimos evangelizar Monteiro inteiro. Hoje poucos jovens evangelizam, estamos falhando e não os incentivando a sair das quatro paredes. Levante do banco, pessoas para evangelizar não falta, deixemos de sermos insensíveis, muitas vezes estamos fechados em nosso mundinho onde tudo conspira a nosso favor, na Vila Santa Maria onde uma vez fomos evangelizar em 1997, chegando ali percebemos em uma casa uma mulher que tinha um punhado de filhos e na sua casa não tinha nada. Precisamos ficar ali conversando enquanto uma das pessoas saiu de moto para providenciar alimentos para aquela família, muitos de nós nunca precisou passar por isso e não sabe o que é deparar com alguém maltratado pela vida. Fizemos uma viagem a cidade de São José do Belmonte-PE e fomos conhecer o Projeto Fonte no Deserto, uma Zona Rural que tinha tudo para ser um fracasso, mas Jesus fez nascer uma fonte naquele sertão castigado pela estiagem, Jesus fez surgir uma igreja no Sítio Inveja e se espalhou por uma vasta região, chegando na cidade de São José do Belmonte, Carmo e indo até Brejo Santo no Ceará e nas proximidades do Sítio Inveja conhecemos uma mulher chamada Edite que entregou-se a Cristo, sua casa era de taipa e uma parte coberta de palha e o Rev. Neto de bicicleta ia evangelizar e dona Edite nos relatou “a felicidade que tenho hoje não troco por nenhuma mansão”. Tudo isso porque alguém ousou sair da sua zona de conforto e foi para o lugar que Deus queria que ele estivesse. Meu irmão saia das quatro paredes, deixe de ser egoísta, se já foi alcançado pela graça de Deus, leve o conhecimento de Cristo a outros que inda não o conhecem.
   
CONCLUSÃO:
          Na exposição desta mensagem vimos que a igreja de Antioquia tinha algumas características que eram: 1. Uma igreja fertilizada por Deus; 2. Era uma igreja que servia ao Senhor; 3. Era uma igreja controlada pelo Espírito Santo e; 4. Era uma igreja que impulsionava seus membros a saírem das quatros paredes e fazerem missões. Pergunto nossa igreja é missionária? Temos sido férteis gerando filhos na fé? Temos de fato servido ao Senhor? Nossa Vida tem sido controlada pelo Espírito Santo? Incentivamos pessoas a sair de dentro do circulo eclesiástico para evangelizar?

APLICAÇÃO:
1.      Deus nos desafia agora a ter uma vida com Deus e para Deus nos envolvendo na obra missionária.
2.      Oramos por nós pela igreja, por missões e pelo missionários?
3.      Vamos aos campos missionários ou contribuímos com missões?
Musica: Nc 312; desafio e oração.

BIBLIOGRAFIA:
GENEBRA, Bíblia de. Edição Atualizada e Ampliada. Campinas-SP: Editora Cultura Cristã, 2010
LEONARD, John. Além do Brasil: Missões. 5ªEd. Patrocínio-MG: CEIBEL, 1992.
SEVERO, Rev. Marcos. Missões por Toda Parte. 1ªEd. Santa Bárbara D’Oeste-SP: SOCEP, 2008.
GEORGE, Sherron K. A igreja Missionária. 1ªEd. Patrocínio-MG: CEIBEL, 1990.
CATÓLICO, Pequeno Catecismo. 1ªEd. São Paulo-SP: Editora de Ajuda Igreja que Sofre.
GEORGE, Sherron K. A Igreja Evangelística. 1ª Ed. Patrocínio-MG, 1989.

Data: 02/08/2012  

Relativismo, absolutismo e a burrificação da teologia brasileira


Durante dois anos dediquei parte do meu tempo para discutir com relativistas ateus acerca da existência de uma verdade universal e absoluta. Sabe o que eu descobri? Que algumas pessoas têm uma vontade enorme de discordar, mesmo em face das maiores evidências. A segunda grande lição que tirei foi que o relativista é um debatedor desleal; como debater a verdade com alguém que crê que todas as proposições são igualmente verdadeiras (não havendo, conseqüentemente, nenhuma verdade?).

Mas se há (e eu tenho absoluta certeza que há!) uma verdade acerca da verdade, é que ela independe da nossa opinião sobre ela. Antigamente a humanidade achava que a terra era plana, mas a crença daquele homem primitivo e medieval não pode mudar a verdade de que a terra é redonda. Eles estavam bem intencionados, mas fracassaram. A verdade sempre existirá, independente do modo como nos relacionamos com ela.

Neste mundo pós-moderno com sua porteira aberta para o absurdo, não faltam cidadãos politicamente corretos para tratar de convencer-nos que a moralidade, por exemplo, nada mais é do que uma convenção social. Não existe um comportamento certo ou errado; não há regras exteriores a nós para se cumprir, tudo começa e termina em nós mesmos. Contudo, mesmo o maior dos relativistas abominará a idéia de ter uma esposa “relativamente fiel”. Neste caso, ele está absolutamente seguro que a fidelidade é um padrão moral legítimo, verdadeiro. Para muitos, todo comportamento é correto, até o dia que um tarado pervertido estupre a sua filhinha indefesa. Isso acontece porque a verdade nem sempre é evidente em nossas ações, mas pode ser percebida em nossas reações.

A exegese e a hermenêutica também tem sofrido influencia do relativismo. Há uma multidão de crentes relativizados, tratando de convencer-nos que o balão é azul, roxo e verde ao mesmo tempo. Para estes pseudo-pensadores, as palavras de Jesus tem um milhão de interpretações possíveis (e igualmente válidas). Quanta frescura! É claro que a Bíblia às vezes usa metáforas, analogias e parábolas, mas nestes casos o sentido do texto é claro. Do mesmo modo, há inúmeras passagens que são literais, e o sentido destas palavras é igualmente claro.

Às vezes penso que esta idéia burrificada de que cada um deve interpretar a Bíblia a sua maneira, e que verdades contradizentes podem ser igualmente verdadeiras é produto do péssimo sistema educativo brasileiro. A grande maioria dos alunos do ensino médio é incapaz de interpretar textos simples! Entende a gravidade do problema? Os nossos queridos relativistas morais e religiosos são, em grande parte, vítimas deste processo.

Por tudo isso que eu afirmo sem medo de errar: “não é o excesso de intelectualidade que está sufocando a igreja brasileira, mas a ausência dela”. E nestes dias confusos, quando os homens “chamam o mal de bem e o bem de mal”, nada pode ser mais normal do que uma multidão de ignorantes sendo aclamados como pensadores e filósofos, enquanto os verdadeiros pensadores são relegados ao anonimato. A burrice virou sinônimo de intelectualidade, e aqueles que usam o cérebro e contrariam as convenções pós-modernistas são chamados de intolerantes e irracionais.

Lamentável, desconcertante, triste, mas… não menos verdadeiro.

Fonte: Napec
 

Como o Cristão deve relacionar-se com as ideologias políticas? Com a Palavra, André Bieler

O Cristianismo reformado foi e permanece fator determinante para o desenvolvimento econômico, democrático e cultural dos povos, importa sublinhar que ele só pode desempenhar esse papel se os crentes, nutridos da forte Palavra de Deus para regeneração do mundo, mantiverem, diante dos sistemas econômicos e políticos, a distância crítica que lhes prescreve o evangelho. E isso é válido para os crentes de todas as confissões cristãs. Se os protestantes têm, a tal respeito, responsabilidade particular em virtude de sua história, não possuem por si mesmos qualquer predisposição especial de que possam prevalecer-se.

Ora, tal missão crítica é sempre difícil de exercer, e por vezes perigosa. Quando é fielmente realizada, defronta oposições, porque questiona os interesses egoístas dos indivíduos e dos grupos sociais, seja qual for a classe da população a que pertençam. Já se observou o fato no âmbito político. E é ainda mais verdadeiro no campo econômico, onde se jogam mais diretamente ainda os interesses de cada indivíduo.

Foi exatamente essa experiência que adquiriram, depois da igreja primitiva e, desde o inicio da história, os cristãos reformados, e especialmente os pastores quando mantinham a indispensável independência da prédica que lhes ordena o Evangelho.

[...] Na política, libertado dos crivos ideológicos habituais, o crente, de fato, não se situa à esquerda, nem á direita, nem ao centro, de modo incondicional, porque seus critérios de julgamento têm outra origem. Está, destarte, equipado para engajar-se temporariamente na cidade, a fim de realizar, com outros irmãos de facção diversa da sua, o programa que lhe parece momentaneamente mais justo e urgente para construir uma sociedade viável e duradoura, na precariedade da nossa situação.

BIÉLER, André. In: A Força Oculta dos Protestantes. Traduzido por Paulo Manoel Protasio.  São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 1999. Capítulo IV: A Ética Cristã em luta com as ideologias contemporâneas, pp. 143 e 164.

Rodrigo Ribeiro

Fonte: www.ump-da-quarta.blogspot.com

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

MUNDO EM FILIGRANAS

Por Jorge Fernandes Isah

Tenho que uma das coisas na qual os crentes mais negligenciam é a afirmação de Paulo: "Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser" (Rm 8.7). Em outras palavras, Paulo está dizendo o que Tiago diz: "Não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus" (Tg 4.4).


Em nome da intelectualidade, tolerância, do politicamente correto, indolência, comodismo, pieguice, e de tantas outras desculpas esfarrapadas, a igreja tem mantido, infelizmente, uma íntima relação com o mundo. O que vale dizer que as trevas ocuparam o lugar que deveria ser da luz, sucumbindo à escuridão completa, na ilusão de que estão a favorecer ou colaborar com a luz. O mundanismo na igreja é como uma peste, um flagelo, uma maldição que se propaga como um vírus letal, o qual consumirá e afasta-la-á do seu propósito: a grande comissão, a obra de proclamação do Evangelho, e a consequente salvação de almas.


Muitos vão taxar-me de fundamentalista (no sentido de reacionário, retrógado, extremista, medieval), mas a própria palavra de Deus afirma que os crentes devem se considerar em constante guerra com o mundo, não se conformarem com ele (Rm 12.2), nem o amarem, pois ao que ama o mundo, o amor do Pai não está nele (1Jo 2.2). Logo, se você quer agradar a Deus sendo obediente aos seus mandamentos, terá de ser reacionário, inflexível, ortodoxo e extremista em defender e viver a Escritura, opondo-se ao pecado. Ou não somos de Deus? Ou não sabemos que o mundo está no maligno? (1Jo 5.10). Não há de se ser condescendente, nem manter-se em uma relação amigável, nem compartilhar qualquer tipo de interesses com aqueles que estão no mundo, os quais são filhos de satanás, e esforçam-se em compartilhar e promover os ideais, princípios e conceitos anti-evangelho de Cristo, que os levarão à morte definitiva, e a quem pactuar com eles. Ouça o que o Senhor nos diz: "Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo" (Jo 17.14), pois "Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia" (Jo 15.19); "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim" (Jo 15.18). O que lhe parece? É possível se enganar? A sentença de Cristo deixa dúvida? Ou será que negligenciamos a Sua advertência fazendo-nos aliados do inimigo, julgando-nos amigos de Deus? "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro" (Mt 6.24). A maior tolice que o crente pode cometer é acreditar que o mundo será sincero, pacífico e justo; antes ele é igual ao seu mentor, o qual "foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira" (Jo 8.44), e "não vem senão a roubar, a matar, e a destruir" (Jo 10.10). Cuidado! Por certo é o que ele deseja ardentemente, e, insistente, não se furtará a usar de todos os meios para lançar-nos em definitivo no abismo.
 
E tudo o que estiver em disposição de resistir a qualquer dos preceitos bíblicos, os quais Deus decretou como o padrão de vida cristã, representará inimizade para com Ele, ainda que aparente insignificância, e faça-se inofensivo. Você ouve piadas imorais e ri? Não se importa em ser desleal? Nem de falar mal do colega de trabalho ou escola? Já olhou para alguém e sentiu-se superior a ele? Ou desprezou-o por não acompanhar o seu raciocínio?... Não estou a falar de prostituição, adultério, furto, vícios, assassinato, e coisas do gênero, mas dos valores cristãos mais elementares que são desprezados e combatidos diariamente, e pelos quais você não se importa. Falo dos filigranas, dos mais tênues desejos que dividimos com o mundo: orgulho, inveja, vaidade, cobiça, trapaças (que se acalentam de uma forma tão intensa e muitas vezes passam despercebidas), e mais, da sua ordem pedagógica de nos sujeitar ao fim por ele pretendido. O salmista nos adverte: "Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite" (Sl 1.1-2) . O que isso quer dizer? Que o crente não deve:

1) Ouvir o conselho do ímpio.
2) Deter-se em seu caminho, antes afastar-se dele. Se não for possível, deixá-lo passar a galope.

3) Assentar na roda dos escarnecedores, e assim, se fazer e agir como um zombeteiro. O alerta é evidente: manter a distância máxima de tudo o que se refere ao mundo, no sentido daquilo que o mundo tem, produz e doutrina como elementos que o levarão ao pecado e a desobediência. Porém, o crente deve ter prazer na Lei do Senhor, e nela meditar dia e noite, incessantemente. Este é o antídoto para não comungar com o mundo: o temor e reverência a Deus, o deleite e a alegria em se sujeitar à Sua vontade expressa claramente na Lei.

Para muitos é possível ser um crente sem amar a Lei de Deus; e, ultimamente, a igreja tem sido vítima (há casos em que é fomentadora) da idéia de que é possível servir a Cristo odiando a Lei. Mas como o Senhor pode concordar que alguém se intitule Seu filho se odeia e despreza aquilo que criou? É coerente? Não. E demonstra o quão pouco razoável e entendido é quem assim pensa e age à revelia da revelação divina, a qual nos diz que a Lei é espiritual (Rm 7.14), santa, justa e boa (Rm 7.12); o que não significa que seremos capazes de cumpri-la. Cristo fez isso por nós, para nos salvar (Gl 3.13). E a prova de que sou salvo é o amor à Lei (Sl 119.163), e desejar no íntimo cumpri-la, ainda que não o faça completamente. A minha alegria é obedecer a palavra de Deus, e a minha tristeza é não ser capaz de realizá-la, por isso a necessidade de arrepender-me e clamar o perdão divino.

Aparte:[Em Romanos 7, Paulo faz um verdadeiro tratado do domínio da lei sobre o homem. Ele fala de duas leis: a Lei santa e justa que revela o pecado, e pela qual Cristo morreu, e com Ele também morremos para o pecado; e a lei do pecado que "habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem... Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim" (Rm 7.17-18, 20). Ou seja, a Lei que revelou-me o pecado, pelo qual seria condenado, foi pregado na cruz do Calvário por Cristo, que cumpriu-a na carne por mim; o que me tornou livre da condenação da Lei, liberto do seu jugo. Contudo, deve-se anelar o desejo de observa-la, em sujeição à vontade de Deus, como Seu filho, o qual tem de ser santo como é santo o Pai celestial (Lv 20.26).

Por outro lado, o apóstolo aponta a incapacidade de se livrar completamente da lei do pecado, a qual serve-se da nossa carne. É o remanescente da nossa natureza corrupta em conflito com o Espírito que habita em nós, opondo-se um ao outro (Gl 5.17). Desta forma, se não reconheço o meu pecado, como me aceitarei pecador? E como buscarei em Deus a santidade e o perdão? Porém, alguns enganam-se a si mesmos dizendo que não têm pecado (1Jo 1.8), ou desprezam-no como algo irrelevante e, assim, poderiam achar que "tanto faz"; com o seguinte argumento: já que não se está livre do pecado, porque não pecar? Esse é um pensamento ímpio e que nada tem a ver com o legítimo propósito de Deus para os Seus filhos. Mesmo que não realizemos toda a Lei, devemos amá-la e desejar sinceramente obedecê-la, como a expressão da vontade divina aos eleitos] .

Claro que há posições divergentes. Muitos crêem que os cristãos poderão se apropriar daquilo que de bom a cultura, a ciência, a educação seculares podem nos oferecer. Creio ser isso evidente, pois somos beneficiados pela tecnologia, pela medicina, pelos avanços em todas as áreas do conhecimento humano, os quais acontecem apenas e somente pela graça e vontade de Deus. Não vejo o porquê de se rejeitar aquilo que o mundo realiza de bom, e que são dádivas do Criador para os homens (para todos os homens, porque Ele usará ímpios para abençoar os santos e vice-versa). Contudo, há de se ter uma separação do crente com as práticas que afrontam a Deus. Ambientes, programações e interesses que infringem a Lei Moral devem ser abominados e repelidos prontamente (bares, danceterias, e a maioria dos programas de tv, por exemplo).

Infelizmente, muitos cristãos têm se deixado seduzir pelos apelos do mundo e andando segundo o seu curso, segundo o espírito que opera a desobediência nos homens (Ef. 2.2); e, progressivamente têm permitido que o pecado entre em suas vidas e as consuma. O que acaba por transformar muitas igrejas em "parques de diversão" do diabo, onde ele se diverte zombando dos que o consideram inofensivo, dos incautos e estultos que são ludibriados pela perversão que há em seus corações, pela soberba dos seus ceticismos, ou das suas crendices.
Ao considerarem algumas práticas malignas como ingênuas, como fruto da "evolução cultural da humanidade", não se apercebem de que são dominados e tragados pela astúcia do prazer ilícito, pelo desejo obsceno, pela imoralidade e, anestesiados, têm suas mentes e corações cauterizados pelo pecado (a mente que deveria ser de Cristo, ainda continua sendo a mente governada pelo pecado, irregenerada), desprezam a Deus, ainda que tentem se convencer de que O servem, quando são escravos de si mesmos e do maligno.

A Bíblia alerta-nos a não descuidar com o pecado, o qual é sutil e malévolo, e quer sempre nos ver rebelar, nos ver insurgir contra Deus, o que, no final, será a nossa destruição.

E é assim que o mundo quer, que os filigranas sejam tecidos ao nosso redor e nos aprisionem, e, enfim, não restará mais nada além dos grilhões, e o Inferno.

Fonte: Kálamo
 

Cinco Afirmações Incontestáveis (Predestinação)

Predestinação: Cinco Afirmações

Incontestáveis


predestinação_incontestável

John Stott

NOTA: Artigo extraído da antiga versão do site www.monergismo.com; referencia fundamental em teologia reformada – não sabemos informar se o artigo consta no novo site monergismo.

John Stott, um dos mais conhecidos ministros anglicanos, inicia seu estudo citando o Artigo XVII da confissão de fé anglicana, conhecida como “29 Artigos da Religião”.
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Comentário Sobre Romanos 8:28-30

A predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes de lançados os fundamentos do mundo) tem constantemente decretado por seu conselho, a nós oculto, livrar da maldição e condenação os que elegeu em Cristo dentre o gênero humano, e conduzi-los por Cristo à salvação eterna, como vasos feitos para honra. Por isso os que se acham dotados de um tão excelente benefício de Deus, são chamados segundo o propósito de Deus, por seu Espírito operando em tempo devido; pela graça obedecem à vocação; são justificados gratuitamente; são feitos filhos de Deus por adoção; são criados conforme à imagem de seu Unigênito Filho Jesus Cristo; vivem religiosamente em boas obras, e, enfim, chegam, pela misericórdia de Deus, à felicidade eterna”. (XVII Artigo de Religião – Predestinação e Eleição).

“Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou, também justificou; aos que justificou também glorificou” (Romanos 8:28-30). Nestes dois versículos Paulo esclarece o que quis dizer no versículo 28 ao referir-se ao “propósito” de Deus, segundo o qual ele nos chamou e age para que tudo contribua para o nosso bem. Ele analisa o “bem” segundo os parâmetros de Deus, bem como o seu propósito de salvação, através de cinco estágios, desde que a idéia surgiu em sua mente até a consumação do seu plano na glória vindoura. Segundo o apóstolo, esses estágios são: presciência, predestinação, chamado, justificação e glorificação. Primeiro há uma referência a aqueles que Deus de antemão conheceu. Essa alusão a “conhecer de antemão”, isto é, saber de alguma coisa antes que ela aconteça, tem levado muitos comentaristas, tanto antigos como contemporâneos, a concluir que Deus prevê quem irá crer e que essa presciência seria a base para a predestinação. Mas isso não pode estar certo, pelo menos por duas razões. A primeira é que neste sentido Deus conhece todo mundo e todas as coisas de antemão, ao passo que Paulo está se referindo a um grupo específico. Segundo, se Deus predestina as pessoas porque elas haverão de crer, então a salvação depende de seus próprios méritos e não da misericórdia divina; Paulo, no entanto, coloca toda a sua ênfase na livre iniciativa da graça de Deus. Assim, outros comentaristas nos fazem lembrar que no hebraico o verbo “conhecer” expressa muito mais do que mera cognição intelectual; ele denota um relacionamento pessoal de cuidado e afeição. Portanto, se Deus “conhece” as pessoas, ele sabe o que passa com elas [138]; e quando se diz que ele “conhecia” os filhos de Israel no deserto, isto significa que ele cuidava e se preocupava com eles.[139] Na verdade Israel foi o único povo dentre todas as famílias da terra a quem Javé “conheceu”, ou seja, amou, escolheu e estabeleceu com ele uma aliança. [140] O significado de “presciência” no Novo Testamento é similar. “Deus não rejeitou o seu povo [Israel], o qual de antemão conheceu”, isto é, a quem ele amou e escolheu (11:2). [141] À luz deste uso bíblico John Murray escreve: “’Conhecer’... É usado em um sentido praticamente sinônimo de ‘amar’... Portanto, ‘aqueles que ele conheceu de antemão’... é virtualmente equivalente a ‘aqueles que ele amou de antemão”.[142] Presciência é “amor peculiar e soberano”. [143] Isto se encaixa com a grande declaração de Moisés: “Não vos teve o Senhor afeição, nem vos escolheu, porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo... mas porque o Senhor vos amava...”. [144] A única fonte de eleição e predestinação divina é o amor divino.

Segundo, aqueles que [Deus] de antemão conheceu, ou que amou de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos (29). O verbo predestinou é uma tradução de proorizõ que significa “decidiu de antemão” (BAGD), como se vê em Atos.4:28 (“Fizeram o que o teu poder e tua vontade haviam decidido de antemão que acontecesse”). É, pois, evidente que o processo de tornar-se um cristão implica uma decisão; antes de ser nossa, porém, tem de ser uma decisão de Deus. Com isso não estamos negando o fato de que nós “nos decidimos por Cristo”, e isso livremente; o que estamos afirmando é que, se o fizemos, é só porque, antes disso, ele já havia “decidido por nós”. Esta ênfase na decisão ou escolha soberana e graciosa de Deus é reforçada pelo vocabulário com o qual ela está associada. Por um lado, ela é atribuída ao “prazer” de Deus, a sua “vontade”, “plano” e “propósito”, [145] e por outro lado, já existia “antes da criação do mundo” [146] ou “antes do princípio das eras”. [147] C. J. Vaughan resume esta questão nas seguintes palavras:

Cada um que se salva no final só pode atribuir sua salvação, do primeiro ao último passo, ao favor e à ação de Deus. O mérito humano tem de ser excluído: e isto só pode acontecer voltando às origens do que foi feito e que se encontra muito além da obediência que evidencia a salvação, ou mesmo da fé a que ela é atribuída; ou seja, um ato de espontâneo favor da parte daquele Deus que antevê e pré-ordena desde a eternidade todas as suas obras. [148]

Este ensino não pode se minimizado. Nem a Escritura nem a experiência nos autoriza faze-lo. Se apelarmos para a Escritura, veremos que no decorrer de todo o Antigo Testamento se reconhece ser Israel “a única nação na terra” a quem Deus decidiu “resgatar para ser seu povo”, escolhido para ser sua “propriedade peculiar”; [149] e em todo o Novo Testamento se admite que os seres humanos são por natureza cegos, surdos e mortos, de forma que sua conversão é impossível, a menos que Deus lhes dê vista, audição e vida. Nossa própria experiência confirma isso. O Dr. J. I. Packer, em sua excelente obra O Evangelismo e a Soberania de Deus,[150] aponta que, mesmo que neguem isso, a verdade é que os cristãos crêem na soberania de Deus na salvação. “Dois fatos demonstram isso”, ele escreve. “Em primeiro lugar, o crente agradece a Deus pela sua conversão. Ora, por que o crente age assim? Porque sabe em seu coração que Deus foi inteiramente responsável por ela. O crente não se salvou a si mesmo; Deus o salvou. (…) Há um segundo modo pelo qual o crente reconhece que Deus é soberano na salvação. O crente ora pela conversão de outros... roga a Deus para que opere neles tudo quanto for necessário para a salvação deles”. Assim os nossos agradecimentos e a nossa intercessão provam que nós cremos na soberania divina. “Quando estamos de pé podemos apresentar argumentos sobre a questão; mas, postados de joelhos, todos concordamos implicitamente”. [151] Mesmo assim há mistérios que permanecem. E, como criaturas caídas e finitas que somos, não nos cabe o direito de exigir explicações ao nosso Criador, que é perfeito e infinito. Não obstante, ele lançou luz sobre o nosso problema de tal maneira a contradizer as principais objeções que são levantadas e a mostrar que a predestinação gera conseqüências bem diferentes do que se costuma supor. Vejamos cinco exemplos: 1. Dizem que a predestinação gera arrogância, uma vez que (alega-se) os eleitos de Deus se gloriam de sua condição privilegiada. Mas o que acontece é justamente o contrário: a predestinação exclui a arrogância, pois afinal, não dá para entender como Deus pode se compadecer de pecadores indignos como eles! Humilhados diante da cruz, eles só querem gastar o resto de suas vidas “para o louvor da sua gloriosa graça” [152] e passar a eternidade adorando o Cordeiro que foi morto. [153]2. Dizem que a predestinação produz incerteza e que cria nas pessoas uma ansiedade neurótica quanto a serem ou não predestinadas e salvas. Mas não é bem assim. Quando se trata de incrédulos, eles nem se preocupam com a sua salvação – até que, e a não ser que, o Espírito Santo os convença do pecado, como um prelúdio para a sua conversão. Mas, se são crentes, mesmo que estejam passando por um período de dúvida, eles sabem que no final a sua única certeza consiste na eterna vontade predestinadora de Deus. Não há nada que proporcione mais segurança e conforto do que isso. Como escreveu Lutero ao comentar o versículo 28, a predestinação “é uma coisa maravilhosamente doce para quem tem o Espírito”. [154]3. Dizem que a predestinação leva à apatia. Afinal, se a salvação depende inteiramente de Deus e não de nós, argumentam, então toda responsabilidade humana diante de Deus perde a razão de ser. Uma vez mais, isso não é verdade. A Escritura, ao enfatizar a soberania de Deus, deixa muito claro que isso não diminui em nada a nossa responsabilidade. Pelo contrário, as duas estão lado a lado em uma antinomia, que é uma aparente contradição entre duas verdades. Diferentemente de um paradoxo, uma antinomia “não é deliberadamente produzida; ela nos é imposta pelos próprios fatos... Nós não a inventamos e não conseguimos explicá-la. Não há como nos livrar dela, a não ser que falsifiquemos os próprios fatos que nos levaram a ela”. [155] Um bom exemplo se encontra no ensino de Jesus quando declarou que “ninguém pode vir a mim, se o Pai... não o atrair” [156] e que “vocês não querem vir a mim para terem vida”. [157] Por que as pessoas não vão a Jesus? Será porque não podem? Ou é porque não querem? A única resposta compatível com o próprio ensino de Jesus é: “Pelas duas razões, embora não consigamos conciliá-las”. 4. Dizem que a predestinação produz complacência e gera antinomianos. Afinal, se Deus nos predestinou para a salvação eterna, por que não podemos viver como nos agrada, sem restrições morais, e desafiar a lei divina? Paulo já respondeu esta questão no capítulo 6. Aqueles que Deus escolheu e chamou, ele os uniu com Cristo em sua morte e ressurreição. E agora, mortos para o pecado, eles renasceram para viver para Deus. Paulo escreve também em outro lugar que “Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença”. [158] Ou melhor, ele nos predestinou para sermos conformes à imagem de seu Filho (29). 5. Dizem que a predestinação deixa as pessoas bitoladas, pois os eleitos de Deus passam a viver voltados apenas para si mesmos. Mas o que acontece é o contrário. Deus chamou um único homem, Abraão, e sua família apenas, não para que somente eles fossem abençoados, mas para que através deles todas as famílias da terra pudessem ser abençoadas. [159] Semelhantemente, a razão pela qual Deus escolheu seu Servo, a figura simbólica de Isaías que vemos cumprida parcialmente em Israel, mas especialmente em Cristo e em seu povo, não foi apenas para glorificar Israel, mas para trazer luz e justiça às nações. [160] Na verdade estas promessas serviram de grande estímulo para Paulo (como deveriam ser também para nós) quando ele, num ato de grande ousadia, decidiu ampliar sua visão evangelística para alcançar os gentios. [161] Assim, Deus fez de nós seu “povo exclusivo”, não para nos tornarmos seus favoritos, mas para que fôssemos suas testemunhas, “para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. [162]Portanto, a doutrina da predestinação divina promove humildade, não arrogância; segurança e não apreensão; responsabilidade e não apatia; santidade e não complacência; e missão, não privilégio. Isso não significa que não existam problemas, mas é uma indicação de que estes são mais intelectuais do que pastorais. E o ponto que Paulo quer enfatizar no versículo 29 é, com toda certeza, pastoral. Tem a ver com dois propósitos práticos da predestinação de Deus. O primeiro é que nós devemos ser conformes [viver de conformidade com] à imagem de seu Filho. Ou, dito da forma mais simples possível, o eterno propósito de Deus para seu povo é que nos tornemos como Jesus. O processo de transformação começa aqui e agora, em nosso caráter e conduta, por meio da obra do Espírito Santo, [163] mas só será completado e aperfeiçoado quando Cristo vier e nós o virmos, [164] e quando nossos corpos se tornarem como o corpo de sua glória. [165] O segundo propósito da predestinação de Deus é que, como resultado de nos tornarmos conformes à imagem de Cristo, ele passe a ser o primogênito entre muitos irmãos, desfrutando da comunhão da família como também da prerrogativa de ser o primogênito. [166]Vamos agora à terceira afirmação de Paulo: E aos que predestinou, também chamou (30a). O chamado de Deus é a aplicação histórica da sua predestinação eterna. Seu chamado chega às pessoas por meio do evangelho; [167] quando esse evangelho é anunciado a elas com poder e elas lhe respondem com a obediência da fé, aí é que se sabe que Deus as escolheu. [168] Assim a evangelização (o anúncio do evangelho), longe de se tornar supérflua em virtude da predestinação de Deus, é indispensável, pois é exatamente ela o meio proporcionado por Deus para que o seu chamado chegue às pessoas e desperte a sua fé. Fica, pois, evidente que aqui, quando Paulo fala do “chamado de Deus”, não se trata daqueles apelos generalizados do evangelho, mas sim da convocação divina que levanta os espiritualmente morto e lhes dá vida. Geralmente se chama isso de chamado “efetivo” de Deus. Aqueles a quem Deus dirige esse chamado (30) são os mesmos que “foram chamados de acordo com o seu propósito” (28). Em quarto lugar, aos que chamou, também justificou (30b). O chamado efetivo de Deus capacita aqueles que o ouvem a crer; e aqueles que crêem são justificados pela fé. Como a justificação pela fé é um assunto dominante nos capítulos anteriores desta carta de Paulo, não há necessidade de se repetir o que já foi dito, a não ser talvez enfatizar que a justificação é muito mais do que simples perdão ou absolvição, ou mesmo aceitação; é uma declaração de que nós, pecadores, agora somos justos aos olhos de Deus, pois ele nos conferiu o status de justos, que na verdade trata-se da justiça do próprio Cristo. É “em Cristo”, em virtude da nossa união com ele, que nós fomos justificados. [169] Ele se fez pecado com o nosso pecado, para que nós pudéssemos nos tornar justos com a sua justiça. [170]Quinto, aos que justificou, também glorificou (30c). Já por diversas vezes Paulo usou o substantivo “glória”. Trata-se essencialmente da glória de Deus, a manifestação do seu esplendor, a glória da qual todos os pecadores estão destituídos (3:23), mas que se regozijam na esperança de recobrar (5:2). Paulo promete também que se participarmos dos sofrimentos de Cristo iremos participar também da sua glória (8:17), e que a própria criação irá um dia experimentar a liberdade da glória dos filhos de Deus (8:21). Agora ele usa o verbo: aos que justificou, também glorificou. Nosso destino é receber corpos novos em um mundo novo, e ambos serão transfigurados com a glória de Deus. Muitos estudiosos percebem que o processo da santificação, que ocorre entre a justificação e a glorificação, foi omitido no versículo 30. No entanto, ele está implícito ali, tanto na alusão a sermos conformados à imagem de Cristo, como na preliminar necessária para nossa glorificação. Pois “santificação é glória iniciada; glória é santificação consumada”. [171] Além disso, tão certo é esse estágio final que, embora ainda se encontre no futuro, Paulo o coloca no mesmo tempo aoristo, como se fosse um fato passado, tal como tem usado para os outros quatro estágios que já são passado. É o assim chamado “passado profético”. James Denney escreve que “o tempo da última palavra é impressionante. É a mais ousada antecipação de fé que o próprio Novo Testamento contém”. [172]

Vimos aqui, portanto, as cinco afirmações incontestáveis apresentadas por Paulo. Deus é retratado como alguém que se move irresistivelmente de um estágio ao outro; de uma presciência e predestinação eternas, através de um chamado e uma justificação históricos, para a glorificação final de seu povo em uma eternidade futura. Faz-nos lembrar uma cadeia composta de cinco elos inquebráveis.

NOTAS:

[136] Jeremias 29.11.
[137] At 2.23; cf. 4.27.
[138] Sl. 1.6; 144.3.
[139] Os 13.5.
[140] Am 3.2.
[141] Cf. 1 Pe 1.2.
[142] Murray, vol. I, p. 317.
[143] Ibid., p. 318.
[144] Dt 7.7s.; cf. Ef 1.4s.
[145] Ef 1.5,9,11; 3.11.
[146] Ef 1.4.
[147] 1 Co 2.7; 2 Tm 1.9; cf. 1 Pe 1.20; Ap 13.8.
[148] Vaughan, 9. 163.
[149] 2 Sm 7.22ss; cf. Êx 19.3ss; Dt 7.6; 10.15; 14.2; Sl 135.4.
[150] Edições Vida Nova, 1961.
[151] Ibid., pp. 13ss.
[152] Ef 1.6,12.14.
[153] Ap 5.11ss.
[154] Lutero (1515), p. 371.
[155] Packer, op. cit., p. 21.
[156] Jo 6.44.
[157] Jo 5.40.
[158] Ef 1.4; cf 2 Tm 1.9.
[159] Gn 12.1ss.
[160] Is 40.1ss; 49.5ss.
[161] Ver; por exemplo, At 13.47; 26.23.
[162] 1 Pe 2.9ss.
[163] 2 Co 3.18.
[164] 1 Jo 3.2ss.
[165] 1 Co 15.49; Fp 3.21.
[166] Cf. Cl 1.18.
[167] 2 Ts 2.13s.
[168] 1 Ts 1.4s.
[169] Gl 2.17.
[170] 2 Co 5.21.
[171] Bruce, p. 168.
[172] Denney, p. 652.

Fonte: STOTT, John. A Mensagem de Romanos. Trad. Silêda e Marcos D S Steuernagel. 1ed. São Paulo: ABU Ed., 2000. 528p.; pp. 300-306.

Para saber mais: http://www.abub.org.br/editora/livros/bibliafalahoje.htm
 
Fonte: www.olharreformado.com

Perguntas ao Calvinismo! Novas Refutações...

Perguntas ao Calvinismo

perguntas_calvinismo

Marcelo Lemos

No texto “Deus Ama Todos os Homens? - Uma Resposta Bíblica ao Artigo “Deus Ama a Todos”; do Blog arminiano Confraria Pentecostal”; nos dedicamos a responder algumas objeções levantadas contra a Fé Reformada pelo irmão Cléber, editor do referido blog. No texto de hoje, estaremos analisando um outro texto do mesmo autor, o qual tem por título “Perguntas ao Calvinismo”.

Nossa oração é que o Espírito Santo possa se valer deste estudo para iluminar o entendimento daqueles que estão a estudar estes assuntos tão importantes da Bíblia Sagrada.

O texto do irmão Cléber contém nove (09) perguntas; buscamos organizar nossas repostas seguindo o cronograma por ele estabelecido.

Escrevemos mais esta replica com coração humilde, e confiando apenas no Senhor: “Porque d’Ele e por Ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a Ele, de eternidade a eternidade. Amém!” (Romanos 11.36).

I

SOBRE DEUS E SUA “IRA”


“Como entender as inúmeras vezes em que Deus fica irado com a incredulidade e desobediência das pessoas? Por que essa ira se (segundo o calvinismo) foi Ele mesmo que "predestinou" essas pessoas a viverem longe dEle?”.



A objeção nasce do pressuposto de que não havendo “livre-arbitrio” não pode haver responsabilidade, nem culpa. Se Deus, como a Bíblia ensina, controla todos os eventos da história humana, então o homem não pode ser (segundo pensa o arminianismo) responsabilizado por seus pecados.

O grande problema é que “responsabilidade”  não depende  primeiramente de “livre-arbitrio”; antes, depende da não existência de um arbítrio livre. Mesmo nos eventos corriqueiros da vida, o que estabelece a nossa responsabilidade não é primeiramente a nossa capacidade de escolher, mas sim, a nossa obrigação a uma Vontade Maior; como a da Constituição, por exemplo.

Caso o cidadão brasileiro possuísse um “livre-arbítrio”; ou seja, caso ele fosse o seu próprio juiz, ele não precisaria atender as exigências da Federação. Mas, como temos a Constituição como nosso juiz maior na esfera civil, a qual é senhora do nosso ‘arbítrio’, podemos ser responsabilizados. Logo, ‘responsabilidade’ está ligada, antes de qualquer outra coisa, ao fato de não haver “livre-arbítrio”, e não na existência dele.

A diferença entre  a Constituição e a Soberania de Deus, é que a primeira se faz senhora apenas do nosso “arbítrio”, mas não da nossa “volição”. Ela regula o que pode ou não ser feito, mas ela não interfere no andamento das ações; apenas aplica seu julgamento ao final da ação realizada. Por isso, o ‘louco’ é considerado “inimputável”, pois o Magistrado irá julgar se ele tinha ou não discernimento do “arbítrio”. Não tendo discernimento do “arbítrio” sobre si mesmo, o ‘louco’ age de acordo com uma volição livre, não responsabilizável. Neste sentido, o único ser dotado de “livre-arbítrio” é o ‘louco’. O Dicionário Aurélio define “arbítrio” como “resolução dependente apenas da vontade!”. Não lhe pode ser imputado culpa, porque ao não discernir o arbítrio sobre ele, o ‘louco’ age como se tivesse “livre-arbítrio”. Porém, mesmo no caso do ‘louco’, a não responsabilização é apenas relativa, e o seu “livre-arbítrio” apenas aparente, uma vez que ele , de fato, não “julga”, pois não é capaz de “discernir”. Em outras palavras, o seu juízo é sem discernimento, portanto errado por definição. Ele não pode ser responsabilizado, pois o seu arbítrio é livre.

A Soberania de Deus, no entanto, se estende sobre as duas coisas. Ela é Soberana sobre nosso “arbítrio”, e é também soberana sobre a nossa “volição”. Ou seja, é Deus quem estabelece o ‘certo’ e o ‘errado’. E a mesma vontade de Deus é quem escreve a história. Certamente os arminianos se apressarão em listar alguns textos onde Deus manda este ou aquele fazer uma escolha; porém, tais textos não alteram o fato de que Deus controla até mesmo as decisões dos homens: “Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor, que o inclina a todo o seu querer” (Provérbios).

Por isso, Paulo ao interpretar os eventos nos quais Faraó, rei do Egito, foi chamado a uma decisão, afirma:

Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” – Romanos 9.17,18.



Toda vez que o arminianismo desejasse apresentar algum texto onde se fala de “decisões”, deveria ter em mente tais verdades bíblicas.

Por que Deus responsabiliza o homem, mesmo sendo Ele mesmo o Único Soberano da história? Ora, exatamente pelo fato d’Ele ser o Único Soberano da história!

Paulo sabia que os incrédulos fariam a seguinte objeção:
“Dir-me-ás então: Porque se queixa Ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade?” – Romanos 9.19.

Em outras palavras, os incrédulos tentam colocar Paulo contra a parede com o seguinte questionamento: “Paulo, seu ensino é irracional. Uma vez que o homem é exatamente o que Deus planejou, então, como é possível que Ele os condene por serem o que são? Não faz o menor sentido!”.

A resposta de Paulo não tem a menor preocupação em equilibrar a Soberania de Deus, com algum suposto livre-arbitrio humano. Paulo simplesmente ignora a existência dessa suposta tenção. Seu argumento, arrasador e conclusivo, é:
“Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me  fizeste assim?” – Romanos 9.20.

Porém, dia após dia, geração após geração, os arminianos continuam repetindo uma objeção que já foi destruída pelo Espírito Santo a centenas de anos...


“Os calvinistas costumam dizer que Deus não predestinou ninguém para a perdição. Mas nesse caso Ele poderia ter predestinado-as à salvação e não o fez. Se decidiu não salvar a pessoa então porque irar-se com alguém que é incapaz de converter-se sem ajuda do Espírito Santo?”.


Não é verdade que “os calvinistas costumam dizer que Deus não predestinou ninguém para a perdição”. A afirmação não está correta. Trata-se de uma afirmação parcial. A doutrina da Dupla Predestinação é aceita por muitos calvinistas, porém, existem alguns que afirmam que Deus “apenas deixa que os não eleitos sigam o curso natural das coisas”. Aqui reside uma das maiores controvérsias internas do Calvinismo, que, no entanto, não interfere no entendimento da predestinação para a salvação – diz respeito apenas a ordem dos decretos. Denomino este segundo grupo como “calvinistas inconsistentes”, termo que aprendi com Vicent Cheug, pois eles não têm coragem de aceitar a doutrina bíblica da predestinação até suas ultimas conseqüências.

Este assunto é, em síntese, apenas uma questão de lógica, já que na pratica os dois acabam afirmando as mesmas coisas. E por se tratar apenas de uma questão de lógica, muitos teólogos renomados acham desnecessário se aprofundar nela. O assunto é tão vasto que outros teólogos, como o maravilhoso Strong, chega a ponto de se confundir, alegando defender a segunda posição (infralapsarianismo), quando na verdade parece aderir ao Amyraldismo, doutrina formulada originalmente por Moisés Amyraut, que seria, em tese, as bases do calvinismo de “quatro pontos”. Esta ultima foi sustentada por grandes nomes como A. H. Strong (cf. Teologia Sistemática; pgs. 777,778; refiro-me a versão em inglês, que tenho); e Richard Baxter.

Trata-se da discussão sobre a ordem dos decretos ANTES DA QUEDA, havendo, porém, comum entendimento quanto a natureza e aos efeitos dos decretos de Deus no homem caído:
“E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa lhe deter a mão, e lhe diga: Que fazes?” – Daniel 4.35.

As demais afirmações desse parágrafo já foram respondidas na seção anterior.

II

DEUS, CULPADO DO PECADO?


“Se Deus predestinou muitas pessoas a um estado de perdição então Ele é o culpado pelos pecados dessas pessoas, especialmente o pecado da incredulidade. Não é absurdo isso? Pelo calvinismo concluímos que Deus é cúmplice dos pecadores”.

Deus decretou o pecado. Deus decretou todas as coisas. Nada pode vir a existência se Deus assim não o desejou. Os arminianos alegam que Deus nunca quis que o pecado existisse. Isso é impossível. Primeiro a Bíblia nunca ensina isso. Em segundo lugar, a Bíblia diz que os planos de Deus não podem ser alterados. Logo, existindo o pecado, Deus quis que assim fosse:
“Bem sei que tudo podes, e que nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido” – Job 42.1.

“Mas, se Ele resolveu alguma coisa, quem então o desviará? O que sua alma quiser, isso fará!” – Job 23.13.

“Muitos propósitos há no coração do homem, porém o conselho do Senhor permanecerá” – Prov. 19.21.

“Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não aconteceram; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” – Isaías 46.10.

Mesmo assim os arminianos argumentam que se Deus decretou, de fato, todas as coisas, então ele é culpado pela existência do pecado. A objeção é irracional, e qualquer pessoa que conheça um milésimo de lógica percebe isso. Para que eu seja responsabilizado por algo, é necessário que exista alguém acima de mim, uma lei que superior a mim! Eu sou responsável exatamente por não ser livre. Se eu fosse livre, um livre juiz sobre mim mesmo – que aliás é o significado de “livre-arbitrio” – então, neste caso eu não poderia ser responsabilizado, pois não precisaria prestar contas a ninguém!

Só pode ser responsabilizado, aquele que precisa prestar contas a alguém! Se eu não devo contas a ninguém, posso até ser o AUTOR de alguma coisa, mas ninguém poderá me responsabilizar por algo que julgue “errado” naquilo que eu fiz. Esta é a essência da nossa responsabilidade: não somos donos dos nossos narizes!
“Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me  fizeste assim?” – Romanos 9.20.

“E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa lhe deter a mão, e lhe diga: Que fazes?” – Daniel 4.35.

Segundo Paulo, Deus era o AUTOR da incredulidade dos judeus; e igualmente era o AUTOR do endurecimento no coração de Faraó. E daí? – é a resposta de Paulo. Desde quando aqueles que “são reputados em nada” se atrevem a questionar a vontade do Criador?

III

DEUS, UM OLEIRO QUE FAZ ‘DISTINÇÃO’?



“Deus é um Pai amoroso ou um Ditador cruel? Deus condena uma pessoa por ela agir exatamente conforme Ele mesmo predestinou?

É verdade que o vaso não pode questionar o oleiro quando Ele decide algo. Mas será que Deus é um oleiro irado e discriminador como descreve o calvinismo?”

Sem querer, o próprio irmão Cleber nos dá a resposta: “É verdade que o vaso não pode questionar o oleiro quando Ele decide algo”. Porém, envenenado pelo vírus humanista do arminianismo, ele questiona: “Mas será Deus um oleiro irado e discriminador como descreve o calvinismo?”.

Já vimos que Paulo não dá a menor atenção a este tipo de objeção:
“Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos pois? que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece. Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer. Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” – Romanos 9.13-23.

Irmão Cleber, o fato é que Deus faz distinção, de forma livre e soberana, sobre os vasos que tem em suas mãos – exatamente como ensina o ‘calvinismo’.

No próximo ponto falaremos mais sobre o suposto problema, alegado pelos arminianos, pelo fato de Deus fazer “distinção” entre pessoas.
IV

DEUS FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS?


“Se a Bíblia diz que Deus não faz acepção de pessoas (Ef 6.9), como pode alguém dizer que Ele escolhe alguns para a salvação e muitos para a perdição? Isso é acepção de pessoas! Mesmo que se alegue que todos merecem a morte eterna, ao escolher alguns, em detrimento de outros, isso é acepção de pessoas”.

Já temos respondido esta objeção em outra ocasião. No artigo “Deus Ama a Todos?” – publicado anteriormente aqui no blog – escrevemos:
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O que é fazer “acepção de pessoas”? Basicamente, trata-se de atitude preconceituosa que libera ou retém algum benefício, ou mesmo direito, com base nas nossas preferências pessoais, em detrimento, ou elevação, das qualidades de outrem.

A lei de cotas é um exemplo de acepção de pessoas. Os antigos banheiros exclusivos para negros também. No filme Fomos Heróis, de Mel Gibson, há uma cena inteligentemente cômica onde a esposa de um soldado, branca e idealista, diz algo como: “Temos problemas com lavanderia, pois não permitem que lavemos roupas coloridas”. “Como assim?”, alguém pergunta. “Bem, na entrada se lê: White Only!”. Ainda hoje grupos como Identidade Cristã, Supremacia Branca e outros imbecis julgam haver nos negros algo que lhes desagrada, que os torna inferiores, menos dignos, etc. Tal atitude caracteriza acepção de pessoas.

Na Bíblia, Deus nunca faz acepção de pessoas e nem permite que seus servos a façam. Importante destacar que em todas as referencias bíblicas, onde encontramos a idéia de acepção de pessoas, o contexto sempre será forense, estando defendia a isonomia do ‘jurista’ perante os direitos, e os deveres,  individuais: Deut. 10.11; 16.19; II Cro. 19.7; Job 13.8; 13.10; 32.21; 34.19; Mal. 2.9; Ef. 6.9; Col. 3.25; Tiago 2.1, 9; I Pedro 1.17. Sendo a mesma linguagem usada contra a mentalidade judaica de que a salvação não poderia ser dada a outras nações: Atos 10.34; Rom. 2.11. Os judeus, que acreditavam poder barganhar seu lugar no Reino por causa da linhagem natural, e barrar a entrada de outros povos, estavam imaginando um Deus que fazia acepção de pessoas!

Com isso em mente, considero a Eleição Incondicional o meio mais bíblico e coerente para se resolver qualquer (alegado) problema de “acepção de pessoas” nos atos de Deus, e não o contraio. Ou seja, quando eu afirmo a Eleição Incondicional, estou muito mais distante de fazer “acepção de pessoas” do que aquele que a nega, e apega-se a uma salvação meritória e condicional; apesar de todo o esforço que o arminianismo faz para parecer o contrário!

Uma vez que “fazer acepção de pessoas” é quando eu escolho e rejeito indivíduos com base naquilo que eles fazem ou não fazem, são ou deixam de ser, conseguem ou deixam de conseguir, a eleição incondicional, que não prevê nenhum bem espiritual inato no ser, ao se manifestar em favor do ser num ato de livre graça, justificante, forense e vicário; não pode ser, tão facilmente quanto o próprio arminianismo, acusado deste mal. – Leia o texto completo.
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O resumo do que demonstrado no texto acima é o seguinte: quando o arminiano sai a pregar um Deus que elege apenas aqueles que se mostram aptos, e assim chegam ao fim, então, eles estão – e não nós! – anunciando um Deus que faz “acepção de pessoas”. Nós pregamos um Deus que escolhe, livre e soberanamente; sem qualquer influencia do que temos, ou não temos; do que somos, ou não somos capazes. Nós anunciamos Graça. Eles anunciam Mérito!
V

DEUS; AFOGANDO GATINHOS NA BANHEIRA?


”Quando Deus mandou o dilúvio e apenas Noé e sua família foram salvos, Ele estava brincando de “afogar gatinhos na banheira”? Ora, se Deus escolheu que ninguém mais seria salvo naquele tempo por que Ele mandou o dilúvio? Por que destruir a humanidade se Ele mesmo tivesse determinado que aquela geração fosse ímpia?”



Entendi a objeção do irmão Cleber; porém, cabe dizer que a questão em negrito está errada, desprovida de qualquer sentido, ou mesmo ligação com a própria objeção. Ora, Deus mandou o Dilúvio para destruir, ‘afogar os gatinhos’, e não para salvá-los. Logo, a pergunta não diz nada relevante sobre o fato de Deus ter desejado salvar apenas a família de Noé.

O mais correto seria perguntar: Se Deus desejava salvar apenas Noé, então porque ele mandou Noé pregar a todos a sua volta? Neste caso, teríamos uma objeção a responder. Em todo o caso, mesmo Deus tendo ordenado que Noé pregasse, não implica que ele desejava salvar a todos.

Observemos o caso de Faraó. Deus enviou várias mensagens a Faraó. A cada nova praga, Deus pedia que Faro libertasse o povo. E em cada uma delas, o coração de Faraó se endurecia, segundo Paulo, por obra do próprio Deus!. Por que Deus agiu assim? No caso de Faraó foi “para mostrar em ti o meu poder”, explica Paulo.

Por isso, antes de os arminianos questionarem “por que Deus mandou Noé pregar, mesmo não desejando salvar a todos?”, deveriam ter em mente que nenhum evento na história altera o fato de que Deus controla todas as coisas, em seus mínimos detalhes. Além disso, Deus não pode ser questionado quanto aos meios que ele utiliza. Ele pede algo para Faraó. E ele mesmo impede que Faraó lhe obedeça. E, por fim, Ele afoga o gatinho Faraó leito lodo do Mar Vermelho. Mesmo assim, a resposta de Paulo continua sendo a mesma: E daí? Quem é o homem para questionar os atos de Deus?

VI

DEUS FAZIA OS PROFETAS DE BOBOS?


“Será que Deus fazia os profetas de bobos? Pois Ele os mandava pregarem arrependimento a gerações que Ele mesmo escolheu que seriam ímpios”.

Deus faz os cristãos de bobos? Antes de responder leia as seguintes passagens:
“Sede vós perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” – Mateus 5.48.

“Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver” – I Pedro 1.15.

Qual o mandamento de Deus nestas passagens? Que sejamos santos da mesma forma que nosso Pai é santo! Já pensou na gravidade de tal exigência? Será que ao menos conseguimos imaginar qual elevada é a santidade de nosso Pai?

E mesmo tendo nos entregue tamanha exigência, Deus nos ensina que,
“Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” – I João 1.10.

Estaria Deus nos fazendo de bobos com duas afirmações tão opostas quando ao que ‘devemos’ e o que ‘podemos’?

Fizemos tal comparação apenas para demonstrar que o dilema que o irmão Cleber tenta nos propor, pode até impressionar alguns, mas como objeção não tem nada a dizer contra nossa fé bíblica.

Sim, Deus mandou os profetas pregarem; mas em lugar algum disse que todos os seus ouvintes seriam capazes de se arrependerem. Isaías, por exemplo, pregava o juízo vindouro, no qual Deus destruiria a nação, humilhando-a, desterrando-a, escravizando-a pelos inimigos. Deus diz que enviaria morte, pestes, calamidades, violência, estupros... Deus a reduziria a nada, até que sobrasse apenas um remanescente, eleito segundo a graça de Deus:
“Porque ainda que o teu povo, ó Israel, seja como a areia do mar, só um remanescente dele se converterá; uma destruição está determinada, transbordando em justiça!” – Isaías 10.22.

“E, há de ser que naquele dia o Senhor tornará a por a sua mão para adquirir outra vez o remanescente do seu povo...” – Isaías 11.11.

“Também Isaías clama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente  é que será salvo. Porque ele completará a obra e abrevia-la-á em justiça; porque o Senhor fará breve a obra sobre a terra. E como antes disse Isaías: Se o Senhor dos Exércitos não nos deixasse descendência, teríamos nos tornado como Sodoma, e teríamos sido feitos como Gomorra” – Romanos 9.27-29.

“Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus profetas, e derribaram os teus altares; e só eu fiquei, e buscam a minha alma? Mas que lhe diz a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos a Baal.  Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça. Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra. Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos” – Romanos 11. 2-7.


VII
JESUS; DESINFORMADO SOBRE O CALVINISMO


“Jesus estava "desinformado sobre o calvinismo" quando ficava indignado ao ver a incredulidade do povo de algumas cidades (como Nazaré)? Ele teria esquecido que foi o próprio Pai que havia predeterminado que eles fossem incrédulos?”

Por que desinformado sobre o Calvinismo? Por acaso o Calvinismo ensina que Deus não fica indignado com o pecado? O Calvinismo ensina que Deus decretou todas as coisas, mas nunca que ele não fique indignado com o Pecado! A Bíblia ensina, por exemplo, que Deus determinou todos os eventos que culminaram na morte de Cristo:
“Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus fez por ele no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis. A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos dos injustos” – Atos 2. 22,24.

E, mesmo tendo Deus determinado cada um daqueles eventos, ele condena os assassinos de Cristo como “injustos”. Ou seja, o fato de Deus determinar a morte de Cristo, e também a forma de sua morte – a menos que os arminianos sustem que sua morte foi opcional’, ou ‘acidental’ – não implica que ele não possa exercer seu juízo contra os vasos que usou para tal evento!

Agora, certamente Jesus estava desinformado quando aos dogmas do arminianismo:
“Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim. Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem. E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão!” – João 10.25-28.



VIII

JESUS; TENDO UM DELIRIO AO CHORAR POR JERUSALÉM?


“Segundo calvinismo foi Deus que predestinou as pessoas a viverem separadas dele – então por que no lamento sobre Jerusalém, Jesus disse "quantas vezes eu quis salvá-los, mas vocês não quiseram!"? Ele estava delirando?Mt:23:37: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!”

Não vamos nem ter o trabalho de interpretar corretamente o texto citado pelo irmão Cleber; isto, em protesto ao extremado mau gosto com o qual ele armou esta objeção.

Porém, precisamos de poucas linhas para demonstrar a tolice deste parágrafo. A objeção do irmão Cleber diz: Se Deus realmente predestinou as coisas, então Jesus estava delirando ao dizer que quis ajuntar os israelitas!

Ora, se é verdade que a predestinação faz o lamento de Jesus ser apenas um delírio, então, o ‘livre-arbítrio’ do homem – defendido pelo irmão Cléber – transforma Jesus num chorão frustrado: eu quis, vocês não quiseram. O ‘livre-arbítrio’ transforma Jesus num “deus” incapaz de realizar sua própria vontade! O ‘livre-arbítrio’ faz de Jesus um refém da vontade humana.

Além disso, o ‘livre-arbitrio’, usado como chave hermenêutica pelo irmão Cleber na interpretação desta passagem, transforma a Bíblia num livro falível, contraditório. Isso mesmo, pois segundo as Escrituras, os judeus rejeitaram o Messias por ter sido esta a vontade de Deus:
“Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos. Como está escrito: Deus lhes deu espírito de profundo sono, olhos para não verem, e ouvidos para não ouvirem, até ao dia de hoje. E Davi diz: Torne-se-lhes a sua mesa em laço, e em armadilha, E em tropeço, por sua retribuição; escureçam-se-lhes os olhos para não verem, E encurvem-se-lhes continuamente as costas. Digo, pois: Porventura tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum, mas pela sua queda veio a salvação aos gentios, para os incitar à emulação” – Romanos 11.7-11.

IX

GRAÇA É IRRESISTÍVEL?


“Foi Deus que predestinou que Adão e Eva iriam cair em pecado, trazendo conseqüências a todos os humanos? Ou essa foi uma escolha de Adão e Eva? Se a graça de Deus é mesmo Irresistível (como alega o calvinismo) porque Deus não impediu que Adão e Eva pecassem? Dessa forma não seria preciso nem mesmo a morte e o sofrimento de Jesus”.

Objeção sem o menor sentido. O irmão pergunta: se a Graça de Deus é realmente irresistível, então porque Deus não impediu a Queda de Adão? Ora, que isso tem haver? Por acaso o Calvinismo ensina que Deus tentou impedir a Queda de Adão? Não, não ensinamos isso! Nem a Bíblia. A Bíblia ensina que Deus colocou uma grande responsabilidade sobre os ombros de Adão, e depois disso, ‘permitiu’ – uso o termo sem qualquer ligação com ‘vontade permissiva’, ok? – que o Inimigo fosse tentar o homem. Além disso, se podemos entender todo o relato literalmente, conclui-se que em nenhum momento Deus preveniu o homem da possibilidade de haver tão grande tentação; nem de tamanho embuste. Sendo o relato literal, Adão e Eva foram às presas mais fáceis que a ‘Serpente’ já encontrou em seu caminho; pois conhecimento do bem e do mal eles não possuíam. O discernimento deles baseava-se apenas em ‘faça isso’, ‘não faça aquilo’. Sem qualquer juízo próprio de valor.

A questão correta, queridos irmãos arminianos, é a seguinte: Se Deus é, de fato, Soberano sobre tudo e todos. E se Deus, de fato, NÃO QUIS que Adão fracassasse, então, como ele conseguiu fracassar?

Deus sabia de tudo? Ou não sabia? Deus controlou a Serpente? Ou a Serpente age de forma autônoma, como um poder paralelo ao de Deus; numa demonstração de dualismo? Se Deus sabia da tentação que viria, por que não avisou Adão? Se for um Deus amoroso, e que não quer o resultado da tentação, não deveria ter avisado? Mais do que isso: deveria ter impedido; assim como um bom pai impede que material pornográfico seja entregue nas mãos de seus filhos!

Ou será que Deus estava ‘aberto’ ao futuro – open teísmo; arminianismo? Afinal, ele sai procurando Adão “onde estás?”; “Quem te mostrou que estas nu?”; “Comeste tu da arvore...?”; “Por que fizeste isto?”.

Ora, vamos a arminiamos! Por que não seguem com a lógica de sua teologia até suas conseqüências ultimas? Vamos lá! Coragem!

Além do mais, dizem os arminianos que aceitam a presciência de Deus. E aqui eles apenas adiam o problema que tentam jogar no colo dos calvinistas. Segundo eles, se Deus QUIS que o pecado acontecesse, então Deus não é um bom Deus. Porém, eles precisam admitir que Deus SABIA que o pecado viria, pois SABIA que Adão seria incapaz de vencer a tentação. Também precisam admitir que Deus PERMITIU que o pecado acontecesse. Aqui eles usam o argumento da ‘vontade permissiva’ de Deus. O problema é que se Deus foi ‘permissivo’ com a existência do pecado, implica que ele NÃO QUIS INTERFERIR, e portanto, ele QUIS e DEIXOU que o desastre por ele previsto, seguisse seu curso normal... Portanto, a objeção que tentam armar contra nós, volta-se contra eles mesmos.

Na conclusão de seu artigo o irmão Cleber faz três afirmações adicionais:

”O Arminianismo é a forma mais óbvia de entender a Bíblia”.

Será mesmo? Então porque o arminianismo precisa redefinir a seu bel-prazer termos como “eleição”, “pela graça somente”, “predestinação”?

“É por isso que os calvinistas gastam tanto tempo explicando e reafirmando seus conceitos”.

Reafirmamos constantemente nossos conceitos, pois os arminianos existem em oposição a doutrina bíblica. Eles existem como “protesto” a nós (não se esqueça, irmão Cleber, de vossa Remonstrance); logo, faz-se necessário reagir aos seus ataques.

Reafirmamos constantemente nossos conceitos, pois teologia se faz por meio de conceitos; e conceitos precisam ser explicados. Da mesma forma que reafirmamos nossos conceitos sobre trindade, escatologia, eclesiologia, etc. Não existe nada de errado em reafirmar conceitos teológicos – muito pelo contrário, é absolutamente fundamental que se faça exatamente assim! Esta observação, por si só, já anula completamente sua objeção.

Reafirmamos constantemente nossos conceitos, pois acreditamos em uma teologia séria, bem feita, bem fundamentada. Os arminianos que também pensam assim sobre a teologia, devem reafirmar seus conceitos também, sempre que for necessário.

Reafirmamos constantemente nossos conceitos, pois acreditamos que a Pregação é o principal meio da graça. O homem natural é inimigo da verdade, transformando a verdade de Deus “em mentira”. Porém, é justamente pela loucura da pregação que Deus chama os eleitos, que antes de tal chamado, vivem junto aos ‘filhos da ira’. Por isso, levamos a sério a necessidade de que o homem entenda corretamente o  que esta ouvindo sobre o Evangelho.

“O Arminianismo é a forma mais responsável de entender a Bíblia pois não anula a responsabilidade humana”.

O Arminianismo arrisca-se a ser (a semelhança do Open Teísmo, seu filho) uma forma blasfema de entender a Bíblia, pois anula a soberania de Deus, estabelecendo a soberania do homem.

O Calvinismo por sua vez, estabelece a total Soberania de Deus, e fundamenta responsabilidade humana no fato de que Deus é soberano sobre tudo e todos; a quem todos haveremos de prestar contas.

Paz e bem.