quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O Valor da Eucaristia


Há muito tempo venho andando no caminho da racionalidade em meio à fé. No afã de desmistificar o mistificado, acabei dando conta de que quase nada havia sobrado sem abalos na crença que havia cultivado até então. Os conhecimentos parapsicológico, psicanalítico, teológico, histórico e cultural, adquiridos em seminários, pesquisas, leituras, cursos e debates com especialistas, sendo alguns renomados nestas áreas, não me deixaram dúvidas de que as experiências religiosas de modo geral e principalmente as manifestações pentecostais não são mais que um subproduto da mente humana.

Diante dessa perspectiva, vinha, há alguns anos, lutando contra mim mesmo. De um lado o “eu” crendo e levando as pessoas a crerem num Deus presente. De outro lado o “eu” acreditando que todo benfazejo que poderia contemplar o crente, adviria unicamente de sua própria fé, o que explicaria todas as manifestações de cura e transformação de conduta que também ocorrem entre aqueles que crêem e seguem princípios de espiritualidade estranhos ao cristianismo. Nessas horas de conflito, meu principal ponto de apoio era creditar a força da fé que opera a um prévio dom divino dado a todas as pessoas indiscriminadamente, de forma que todo poder de operar milagres já estaria potencialmente presente, na pessoa, à espreita da fé. Embora plausível, essa premissa nunca foi capaz de satisfazer minha busca, pois não me agradava a idéia de um Deus impessoal, que dispõe aos seus filhos um mecanismo (a fé) que deverão aprender a usar sozinhos, abandonados à própria sorte no curso da vida.


Nesse tempo, observei que as igrejas evangélicas, bem como o catolicismo popular, aprenderam o poder da simbologia e em função disso lançam mão de todo tipo de amuletos para certificar a fé do fiel. Assim, mistificam diversos elementos como água do rio Jordão, terra de Israel, sal ungido, fitinhas (com ou sem nós), medalhas, anéis, rosa ungida, cruz vazada e outras tantas formas de “feitiçaria gospel”. O fato é que não podemos negar o sucesso obtido por meio desses amuletos no que se refere ao estimulo da fé. Muitos têm sido, por esses meios, curados de forma inexplicável. Considerei então que se elementos mistificados pela fé humana podem produzir tal efeito, quanto mais eficaz deve ser o que é de fato místico! Mas o que é de fato místico?


Temos por místico a Deus e seu fazejo espiritual. É por isso que, nessa mesma perspectiva, Calvino defendeu que o Santo Batismo e a Santa Eucaristia deveriam ser chamados de sacramentos, já que estes foram instituídos pelo próprio Senhor Jesus, de forma que negar seu valor místico seria negar a divindade de Cristo e o valor de suas palavras. É por isso que não pode desvalorizar os Santos Sacramento quem valoriza a Santa Palavra daquele que os instituiu.

Minha luta interior tomou resolução ao tempo em que compreendi que, ao contrário dos “amuletos da fé”, os sacramentos não são produtos, nem subprodutos da mente humana, mas instituição do próprio Deus. Na eucaristia o pão que partimos, partiu das mãos do Senhor Jesus, e ainda hoje o partimos de forma muito semelhante a que se fazia no primeiro século, como se das mãos do próprio Cristo o recebêssemos. O Cristo que manifestou a presença de Deus conosco, apresenta-se entre nós pela Eucaristia, a Palavra e o Espírito, acercando-nos por estes meios eficazes, a fim de nutrir nossa frágil fé e dar-se de igual modo ao rico e ao pobre, ao letrado e o indouto, ao forte e ao fraco.

Eis um mistério: Deus se fez homem; o verbo virou gente; o Espírito se fez carne; o místico se fez físico. Então o verbo encarnado, Jesus, como Filho mostrou o Pai, como homem revelou Deus; da mesma forma que o pão e o vinho, pelo poder do Espírito e da Palavra Divina, revelam Cristo em nós; e o físico nos traz o místico. Por esta clara razão os discípulos que acompanhavam Cristo no caminho a Emaús O reconheceram somente quando se deu o ato de partir o pão. Naquele mesmo momento também compreenderam as palavras de Cristo que lhes ardia no coração. E é este o efeito que a Eucaristia nos proporciona: permite-nos identificar sua presença e compreendermos o poder de sua Palavra. A falta de discernimento do Corpo de Cristo tem provocado uma letargia espiritual e privado muitos fiéis da presença real de Cristo e da vida promulgada nas Escrituras Sagradas, razão pela qual, tendo passado o período da reforma da igreja, vivemos um período de deforma da mesma. Disso já advertia São Paulo: “Pois, a pessoa que comer do pão ou beber do cálice sem reconhecer que se trata do corpo do Senhor, estará sendo julgado ao comer e beber para o seu próprio castigo. É por isso que muitos de vocês estão doentes e fracos, e alguns já morreram” (I Cor.11:29-30 NTLH).

Quanto a mim, depois de tanto tempo peregrinando a rota da razão, rendi-me a fé no que é realmente místico e me faz compreender o que não explico, nem poderia explicar, pois se um milagre fosse explicável, não seria milagre. E novamente encontro em Calvino a melhor forma de expressar o que é sacramento: “Um Mistério”! E que melhor forma haveria de expressar Cristo no que tange seu nascimento, sua vida, sua morte, sua ressurreição, ascensão e gloriosa vinda? Crer neste mistério implica crer naquele, pois são unos. Foi este o mistério uno que Ele mesmo ordenou que proclamássemos ao comer de seu corpo e beber de seu sangue.

E assim, quando Deus me encontrou, também se deixou ser por mim encontrado.
Fonte: Novo Olhar Reformado

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O Deus que Lava os Pés

Questionamentos a respeito da existência de Deus muitas vezes perturbaram H A Hodges, um brilhante e jovem professor de filosofia da Universidade de Oxford.

Um dia, ao perambular pelas ruas, passou por uma loja de artes. Sua atenção foi atraída por um quadro de Jesus se ajoelhando, a fim de lavar os pés de seus discípulos. Hodges conhecia a história registrada em João 13, Deus encarnado lavando os pés de seres humanos. Mas, de repente, o simples significado daquela cena atraiu o coração do jovem filósofo.

Deus!… Deus!… Humilhando-se para fazer a tarefa mais humilde! Ele pensou: Se Deus é assim, então esse Deus tem que ser o meu Deus! Ver aquele quadro foi uma das circunstâncias que levou Hodges a render sua vida ao Deus verdadeiro – o Deus que lava pés.

Nós, cristãos, muitas vezes vemos a existência de Deus como algo normal. Cremos no que a Bíblia diz sobre o Espírito eterno, que nunca teve início e cuja existência nunca acabará. Contudo, talvez, de vez em quando nos questionamos acerca de seu caráter. Se ele permite desastres, como pode ao mesmo tempo ser bom e amoroso? Quando lemos João 13, atentamente, vemos que Deus é o Deus que lava pés. Seu amor insondável, sacrificial, por nós, deve fazer com que nos rendamos também a ele.

Vernon C Grounds
Nosso Andar Diário
Ministério RBC
Mais histórias que as atas não contam


Sou grato ao Senhor pelo grande presente recebido do Conselho das Graças, através do Rev. Sávio, que é estarmos hoje aqui, Lucila e eu, na nossa igreja do coração. Desde a semana passada, quando desembarcamos no Guararapes/Gilberto Freyre, cada encontro tem sido regado de saudades e emoção. Dentro do que sugeri em recente artigo, dou aqui algumas pinceladas com a finalidade de contribuir com o historiador, recordando fatos que as atas não contam em detalhes.

Vivíamos ávidos por encontrar um imóvel onde pudéssemos nos reunir com maior espaço. A casa da Rua do Espinheiro já não nos comportava mais. Cada semana alguém trazia um recorte de jornal ou uma informação mais concreta sobre uma casa antiga onde com algumas modificações poderíamos ficar tranqüilos. Dentre as dezenas que “corremos” a que me chamou mais atenção foi, sem dúvida, uma da Av. Rosa e Silva, altura do número 1.500, com fachada imponente e amplo salão. Tenho fotos da visita que fizemos cheios de esperança. Rev. Éber e família, eu, Lucila e o Enos Filho e Geraldo e Nísia dentre outros, e ali sonhamos por um bom par de horas. Novamente o preço e as condições de compra nos fizeram esquecer. Pouco tempo depois veio o grande presente do Senhor – a bênção inimaginável tão bem proclamada pelo Rev. Éber, que foi a doação desta propriedade onde hoje estamos. No livro deD. Juracy está muito bem descrito o presente que recebemos de D. Ada Alimonda, através do Rev. João Campos.

Ao redor de ano de 1986 (e os detalhes precisos podem ser pesquisados nos Boletins), quando sentíamos que os cultos de quarta-feira estavam com pouca freqüência. O Conselho aprovou então a idéia de que fossem criados os Grupos Familiares, encontro semanal nos lares, cuja experiência em outras igrejas estava obtendo resultados os melhores. Daí, nasceram os atuais pequenos grupos que hoje encerram grande ministério de suporte em crescimento e oração nas Graças. Eu e Lucila ficamos sob a orientação de Oton Júnior, no grupo que reunia moradores da Torre e arredores. Pouco tempo depois assumimos a direção do Grupo de Jovens, com grandes encontros na casa de Paulo e Ester Menezes.

Na tarde de 03 de setembro de 1989, um domingo onde alegremente se sentia a breve chegada da primavera, nós estávamos reunidos, lá em casa, uma boa parte dos jovens de então. Sob a liderança do Jorginho Santana analisávamos o bom trabalho de teatro que estava sendo realizado, verdadeira evangelização através da arte. Foi então ali, pela primeira vez, pronunciada a palavra EVANARTE. Diria que se tivéssemos de definir uma data de aniversário desse grupo, essa seria de muito bom alvitre.

A tradição presbiteriana quanto à participação das sociedades domésticas das Graças nas federações e confederações tem sido uma forte verdade em relação à SAF. Todavia vale registrar que também a MUG esteve durante um período muito ativa nessa área, dando-nos até um presidente da Federação da Mocidade do Presbitério de Pernambuco – o jovem Aroldo de Gueiros Malta,em1989.  

Temos uma rica história musical me nossa igreja. A Escola de Música Graças viveu intensamente um bom período. Dentre muitas atividades registrem-se as grandes “Sextas de Música”, organizadas pelo Maestro Flávio Medeiros, entre 1991 e 1994. E por aí vai. Você também, se parar um pouco para registrar fatos e fotos de nossa História, enriquecerá nosso Boletim, fornecendo ricos subsídios aos pesquisadores, que certamente surgirão nessa nossa marcha para o cinqüentenário ricamente abençoada pelo Senhor.

Rev. Enos MOura

Entrevista Sobre o Cenário Evangélico do Brasil


Rev. Augustus Nicodemus


ENFOQUE – Como o senhor analisa hoje o cenário evangélico brasileiro?
Augustus: Vivemos um momento de grandes mudanças no cenário brasileiro evangélico, mudanças que começaram a ser gestadas quando as igrejas evangélicas em décadas passadas passaram a abandonar o referencial da Reforma protestante, o referencial da própria Escritura Sagrada, a Bíblia, e passaram a se entender como um movimento voltado para a satisfação das necessidades imediatas e materiais dos seus aderentes e a aferir o sucesso espiritual pela prosperidade material. As igrejas neopentecostais continuam a crescer e continuam a não ter rumo teológico algum, escandalizando cada vez mais a opinião pública, envergonhando os evangélicos com práticas e costumes bizarros e estranhos, e com escândalos que ganham a mídia e que revelam os intestinos dessas igrejas. Espanta-me o fato que a teologia da prosperidade continua crescendo apesar de tudo.

Mas, não é somente isso. Hoje, as igrejas evangélicas pentecostais tradicionais correm o risco de ser minadas pelo liberalismo teológico, através dos obreiros e pastores que vão buscar um diploma de teologia reconhecido pelo MEC em universidades públicas e seminários dominados pelo velho liberalismo teológico. Não há nada errado em almejar um diploma desses, mas é que as instituições credenciadas para emiti-los usam o chamado "método científico" para estudar a Bíblia, método esse que parte do pressuposto que ela é simplesmente um livro religioso e não a infalível Palavra de Deus.

As igrejas históricas continuam pequenas e sem muito poder de fogo no cenário nacional, embora sejam elas que estejam fornecendo os professores de seminários onde os demais evangélicos vão buscar diplomas reconhecidos. São elas, também, que estão na linha de frente provendo informações e estudos sobre as questões éticas que estão sendo debatidas hoje no Brasil, como, por exemplo, a lei da homofobia. Algumas dessas denominações tradicionais estão totalmente divididas internamente entre conservadores, pentecostais e liberais, que lutam por tomar o controle dessas denominações.

Em outras palavras, não vejo o atual cenário brasileiro evangélico com muito otimismo, embora recentemente tenham acontecido algumas coisas que sugerem que nem tudo está perdido. Uma denominação histórica que estava muito minada por pastores e professores de teologia liberais deu uma reviravolta e cortou toda e qualquer relação com organismos ecumênicos que envolvam o catolicismo. Para muitos foi um retrocesso, para mim, um avanço. Percebo igualmente um aumento do interesse de muitos, especialmente dos pentecostais, pela teologia reformada, pela teologia conservadora séria, erudita e pastoral, que traz um misto de profundidade e piedade. Cresce bastante o mercado de livros evangélicos com boa teologia e boa prática. Isso traz alguma esperança.

ENFOQUE: As igrejas históricas estão conseguindo sobreviver aos furos das neopentecostais?
Augustus: Em parte. Por um lado, o neopentecostalismo é tão obviamente antibíblico que a tarefa dos pastores e líderes das igrejas tradicionais fica mais fácil. Seria mais difícil se o neopentecostalismo fosse mais sutil, mais sofisticado. Mas, é um movimento de massas, levado avante no grito, na centralização do poder nas mãos de pseudo-bispos e apóstolos que manipulam as massas usando a Bíblia como pretexto para recolher milhões e milhões de reais. Não é difícil para qualquer pessoa um pouco mais esperta desconfiar do que realmente está acontecendo.

Por outro lado, o apelo que o neopentecostalismo faz à alma católica dos evangélicos é muito grande: objetos ungidos, relíquias, líderes apostólicos, prosperidades, milagres físicos – tudo herança do catolicismo na mentalidade brasileira. Mas, muitas igrejas tradicionais já estudaram o assunto e já tomaram posição sobre ele. A Igreja Presbiteriana do Brasil, por exemplo, tem veiculado cartas pastorais que instruem seus membros sobre o movimento G-12, as práticas da Universal do Reino de Deus, coreografia e dança litúrgica, para mencionar alguns. Isso ajuda os membros e pastores presbiterianos a ficarem firmes contra essas práticas.

ENFOQUE: Na sua opinião, qual será o futuro da Igreja Evangélica Brasileira?
Augustus: Como alguém já disse, “é muito difícil profetizar sobre o futuro”. O presente sugere que esse futuro não é róseo. O crescimento vertiginoso entre os evangélicos do pragmatismo, o relativismo, o liberalismo, a libertinagem, associado à desorganização e à fragmentação do movimento evangélico só pode pressagiar dias maus pela frente, a menos que Deus tenha misericórdia de Sua Igreja e intervenha de forma poderosa, como já fez várias vezes no passado.

O que mais me preocupa quanto ao futuro é que os evangélicos estão cada vez mais achando que os valores morais e doutrinários são relativos e cada vez mais abandonando o conceito de verdades absolutas e permanentes. Essa tendência é o resultado óbvio da influência do relativismo que permeia a cultura brasileira.

Uma amostragem do relativismo, que desemboca na libertinagem, pode ser encontrada em blogs, comunidades no Orkut e sites evangélicos na internet. Há comunidades evangélicas no Orkut, por exemplo, onde o sexo entre os jovens cristãos antes do casamento é defendido como se fosse absolutamente normal. Os jovens são expostos a todo tipo de doutrinação sem ter o acompanhamento de seus pastores e líderes, que via de regra não estão familiarizados com essa forma de comunicação ou não têm tempo. Pais e líderes evangélicos ficariam abismados se entrassem nessas comunidades. Por um lado, os jovens evangélicos são hoje muito mais bem informados e críticos que os de gerações anteriores. Por outro lado, receio que uma nova geração de evangélicos está se formando, em que pese o alcance ainda bastante limitado desses meios de comunicação, que verá com naturalidade a relativização dos valores morais e dos pontos doutrinários basilares do Cristianismo, com trágicos resultados para a fé e o testemunho cristãos.
Razões Para Não Estudar Teologia


Por Marcelo Lemos


Meu primeiro dia no Seminário, como aluno, foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Finalmente, ali estava eu, pronto para penetrar a mente de grandes pensadores da religião cristã como Lutero, Calvino, Wesley, Finney! O que estes homens haviam descoberto nas Escrituras? Onde eles tinham acertado ou errado? Quais contribuições eles haviam nos deixado? Poderíamos somar alguma contribuição às deles?

Podem me chamar de idealista, mas eu estava cheio de esperança e alegria. Acreditava que ali, estaria unindo-me a jovens e adultos que pretendiam fazer a diferença na história da Igreja. E penso que eles desejavam isso. No entanto, logo viriam algumas decepções.


Desapontamentos que não se dissiparam com o tempo. Muito pelo contrário, se agravaram bastante, principalmente nos meus dias de professor de seminário. Não que me tenha sido uma tarefa triste ensinar, o duro foi compreender que muitos estudantes não são capazes de se deixarem ensinar. É uma constatação decepcionante.

Além de idealista, talvez eu seja também presunçoso. Se for presunção acreditar que ser um teólogo é algo mais do que um anel e um diploma na parede, então, aceito a acusação. Se acreditar que ser teólogo é pensar, refletir, questionar, desconstruir e reformar, então, podem somar mais esta imperfeição a minha já longa lista de imperfeições.

Ao ler as próximas linhas, alguém poderá se sentir diante de palavras exclusivamente negativas. Mas não. Por trás de cada um destas negativas, o leitor poderá perceber um apaixonado apelo por uma teologia real, construtiva e relevante. Sem querer minimizar o valor do estudo formal, afirmo que um diploma não é o suficiente para tornar você um teólogo. Ser teólogo não é repetir resumos enlatados em pobres apostilas institucionais; ser teólogo é fazer teologia; ser teólogo é pensar.

Quer vir comigo? Antes de vir, reflita se você está realmente disposto a caminhar neste mundo fascinante, mas, ao mesmo tempo, tão árduo. As observações a seguir são pensamentos gerais, a fim de nos levar a reflexão. Ninguém pode possui tudo o que se espera ou deseja, seja qualquer for sua vocação, entretanto, para não ser apenas mais um ‘anelado’ enfeitando os púlpitos por ai, faz-se necessário, ao verdadeiro teólogo, caminhar uma segunda milha.

Não faça teologia se você é preguiçoso.

Alguns estudantes de teologia alegam que não gostam, ou não sabem escrever. É um quadro triste. Não poucas vezes fui procurado por diversos destes estudantes dispostos a me pagarem até R$ 90,00 por um trabalho de trinta páginas! Eu sei que isso não é privilégio dos estudantes de teologia, é um câncer generalizado no sistema educacional do nosso país. Também conheço estudantes de pedagogia, filosofia, enfermagem que fazem a mesma coisa... Fiz algumas contas e cheguei a seguinte conclusão: se eu passar a aceitar alguns destes trabalhos, em pouco tempo terei um próspero negócio - ilegal, é claro!

A dificuldade que temos para escrever revela um outro mal: a incompetência como leitores. Não conseguimos escrever porque não conseguimos ler. E o pior: segundo algumas pesquisas, mesmo quando o Brasileiro é forçado a ler, ele compreende muito pouco!

Os estudantes de teologia não são piores do que os outros apenas por não gostarem de ler e de escrever. São piores porque escolheram a Teologia. Um verdadeiro teólogo é alguém que defenderá a cosmovisão bíblica como tendo a resposta para as questões ultimas da vida, inclusive para a educação e o progresso histórico. Para tanto, o teólogo precisa não apenas imaginar isso, ele precisa viver isso, lutar por isso, fazer parte disto!

Se existe alguém que tem sobre seus ombros a responsabilidade de reformar a Igreja e a Sociedade a sua volta, este alguém é o teólogo, a menos que ele tenha uma visão muito pobre sobre a cosmovisão cristã. Neste caso, ele fatalmente se alistará àqueles que engrossam as fileiras do exército da religião utilitarista.

Não faça teologia se a sua preocupação precípua é o aplauso.

Ser pentecostal pode ser bem complicado, as vezes... Caso você queira fazer teologia, possivelmente encontrará algumas objeções pelo caminho. Ainda hoje muitos imaginam o saber teológico como sendo algo contrário a uma vida de comunhão e poder espiritual. Todavia, você também encontrará aqueles que o incentivaram, e será recebido por algumas Igrejas que simplesmente se deleitam ouvindo homens de perceptível cultura bíblica.

Ou seja, você enfrentará pedras, e aplausos. Um pouco mais do primeiro, certamente – mesmo que de forma velada, na maioria dos casos.

Todavia, não espere pelos aplausos. Contente-se com as pedras: espere por elas! O motivo é bem simples: caso os aplausos sejam sua razão de ser, rapidamente você sucumbirá ao status quo a sua volta. Então, você perderá a chama da Reforma que deveria incendiar o seu coração a cada nova manhã. Para fazer a diferença, para não ser engolido pela crescente massa de mercadores da religião, você não pode fazer dos aplausos o alvo da sua vida!

Estou certo de que seria muito mais popular caso dedicasse minha vida a pregar o arminianismo, ou então, a divulgar gráficos milaborantes sobre as teorias dispensacionalistas sobre o fim dos dias. Porém, se eu assim fizesse, estaria traindo aquilo que minha fé adquiriu do Senhor. Não estou dizendo que você não possa pregar o dispensacionalismo – isso é algo que depende da sua convicção, não da minha. O que digo é que ao aceitar ou rejeitar alguma coisa, enquanto pregador e teólogo, você deve estar comprometido apenas com a verdade, independentemente das conseqüências de sua ação.

Não faça teologia se você tem coração sectário.

A incapacidade de conviver com quem pensa diferente de nós é algo difícil de ser superado. Não que eu defenda o ecumenismo, não é o caso. O que eu defendo é a catolicidade da fé cristã. Acredito que a fé em Jesus, que é dom de Deus, salva o homem, independentemente da denominação, ou das doutrinas distintivas que ostente – desde que tais distintivos não anulem o Evangelho. Em outras palavras, recebo como irmãos em Cristo, todo aquele que não nega as doutrinas fundamentais expostas nos credos historicamente aceitos pela Igreja.

Tenho visto arminianos que negam a salvação a calvinistas, e muito mais calvinistas que negam a salvação aos arminianos. Parece que alguns pertencentes aos dois grupos se vêem como inimigos, e não como irmãos. É evidente que se o arminiano está certo, o calvinista esta errado; ou, do contrário, o calvinista está certo e o arminiano errado. Porém, qual o meio que ambos usam para chegar a Deus? A fé? Se a resposta é sim, onde está o impedimento?

Infelizmente, parece que abraçamos uma espécie de “gnosticismo confecional”. A doutrina gnostica defendia que a salvação do homem está condicionada a certo conhecimento que se deveria obter. O homem, segundo tal doutrina, é salvo com base no conhecimento que possui. O Evangelho, porém, não fala de uma salvação condicionada ao conhecimento, mas condicionada a fé. Este é o todo o conhecimento necessário: que Cristo morreu por nós quando ainda erramos pecadores.

Ora, acabo de me contradizer, pois afirmo que a fé é o ‘único conhecimento necessário’, logo depois de afirmar que o Evangelho ‘não fala de uma salvação condicionada ao conhecimento’. Vou, então, tentar ser mais claro: não somos salvos pela confissão de fé distintiva desta ou daquela Igreja, somos salvos pela confissão de fé em Jesus! Se há algum conhecimento necessário é que Jesus veio ao mundo salvar pecadores.

Não faça teologia se você pensa que isto lhe trará dinheiro.

Você dificilmente ficará rico através da teologia, a menos, claro, que sua teologia seja a da prosperidade, ou algo semelhante... Se você quer ficar rico por meio da religião, eu lhe indicaria outros caminhos,

  • Você pode começar a contar uma história excepcional de livramento ou milagre. Neste caso você provavelmente dará inicio a um prospero ministério de ‘curas e milagres’, que atrairá a si multidões enormes de pessoas das classes C e D.

  • Você também poderia montar um grupo de louvor e adoração. É aconselhável que se apresentem como ‘levitas’, e não se esqueçam de relatar alguma experiência excepcional por meio do que você foi vocacionado pelo Senhor a conquistar o Brasil para Jesus. Não se esquecendo de tais detalhes você poderá até cantar diversas heresias, mas a ‘áurea’ de ‘ungidos’ te protegerá de toda critica, tornando seu ministério inabalável.

  • No caso de você ser assembleiano é aconselhável que você faça uma boa propaganda quanto aos seus dotes de ‘conferencista internacional’, ou de sua vocação para ‘promotor de avivamento’. É quase infalível. Se for uma pessoa carismática, poderá ganhar alguns milhares de reais por cada noite de pregação. Caso seja apenas uma pessoa corajosa, mas sem muito carisma e charme, ainda assim poderá ganhar uns duzentinhos por cada noite de pregação.

  • Você além tiver vocação para a pilantragem, existe um caminho que é também quase infalível – faça macumba gospel. Se no seu bairro ainda não existe alguém que faça, seja o pioneiro; todavia, se prepare para a concorrência que logo te dará dores de cabeça. Por isso, tenha na manga uma boa lista de ‘rituais’ impactantes: tapetes de fogo, diploma de dizimista, água benta (que você poderá ‘envagelicar’ chamando por ‘água ungida’), rosa ungida, cajado de Moisés, bolo da multiplicação, óleo de mirra, óleo de Israel, fogueira santa... E para fechar a semana com chave de ouro, não se esqueça nunca de levar os pedidos de oração para o monte, a fim de queimá-los perante a face do Senhor.

  • Você pode criar uma seita honesta. Que é uma seita honesta? É aquela que assume que é seita, e não quer obrigar ser considerada evangélica – entendeu? Algumas seitas são financeiramente bem sucedidas; não abra mão desta possibilidade antes de tomar sua decisão final.

Penso que o ideal é que o teólogo, e também o pastor, seja duplamente vocacionado. Há muitas vantagens aqui. Uma delas é tirar dos ombros das Igrejas locais o ônus de bancar integralmente o custo de um ministro ordenado: principalmente no caso de Igrejas históricas, já que no pentecostalismo clássico, não há ministros assalariados em Igrejas locais, exceto raríssimas exceções. Mas, em ambos casos, ministros com dupla vocação seriam de grande utilidade para a Igreja, recebendo da Igreja apenas uma ajuda de custo devido suas atribuições ministeriais.

Não faça teologia se você não tem amor pelo ensino, ou pela pregação.

Não há razão de ser um teólogo que não ensina, seja lecionando, seja pregando. Parece-me que muitos gostam de ostentar ‘anel’, e poucos se dedicam à tarefa para a qual foram treinados. É comum sabermos de pessoas que estão estudando teologia e que na pratica continuam professores e pregadores superficiais. Para mim, tal atitude significa desprezo pelo ensino. Se já me decidi por ser um pregador superficial toda a vida, então, qual o motivo para estudar teologia? Ah! Sim! Já ia me esquecendo... o anel!

No banco do seminário teológico, espera-se que o estudante conheça a exegese, e hermenêutica, a homilética, a gramática grega... Porém, quando este mesmo estudante sobe no púlpito ele continua discorrendo sobre “10 Passos Para a Vitória!”. Falta-lhe ainda amor ao ensino, falta-lhe compromisso inabalável com simplicidade do Evangelho.

No caso da pregação, eu sempre aconselho o jovem a não desejar ser um grande pregador, já que tal ‘status’ está forçosamente associado a demonstrações de carisma, poder pessoal e emocionalismos. Antes, aconselho-os, assim como aconselho a mim mesmo, a desejar ser apenas um porta-voz fiel da mensagem bíblica. É aqui que se encontra a essência do ministério da pregação. Se o pregador desce do púlpito com a certeza de ter sido fiel ao que Deus revelou em sua Palavra, não importa como a Igreja recebeu sua mensagem! Claro que nos dedicamos a tornar nossa fala tecnicamente agradável, além de cativante e relevante, porém, jamais as custas da fidelidade a palavra de Deus!

Conheço um jovem pregador chamado Talles. Trata-se, posso dizer francamente, do ‘melhor amigo’ que tenho, numa amizade que já dura mais de uma década. Nos últimos anos tenho aprendido apreciar este homem de Deus como um pregador fiel das Escrituras, mesmo que possamos divergir quanto a algumas doutrinas. Jamais vi, não que me lembre, uma Igreja ‘vir a baixo’ numa pregação do Talles. Com efeito, as pessoas não fazem ‘aviãozinhos’, nem caem ‘arrebatadas’ quanto ele expõe as Escrituras. Todavia, enquanto ele prega, eu olho para o rosto delas e as vejo compreendendo o que ouvem, e sucumbirem diante da clareza das Escrituras.

Tudo que Talles faz é: ler o texto Bíblico, normalmente um trecho dos Evangelhos; em seguida ele explica o texto e, então, aplica o texto a vida da Igreja. Talvez você possa estar pensando: “Só isso?!”. Mas, isso é tudo que importa. Isso é pregar o Evangelho. E é tudo que você, enquanto pregador ou teólogo, precisa buscar.

Minha esposa costuma dizer que eu penso muito no futuro, e que isso pode ser ruim. Quando nos casamos eu disse a ela: “Em dois anos quero um filho, pois não pretendo assistir a adolescência do meu filho sentado na arquibancada: quero jogar bola com ele!”. Sei que ela está certa, e que o futuro será sempre uma surpresa. Por experiência própria, e tantas vezes em meio a dor, tenho aprendido que o futuro simplesmente acontece. Porém, não consigo evitar refletir quanto o poderá vir, e como nos preparar para o amanhã.

Quando penso no futuro da Igreja sinto uma pontinha de desconforto. É possível que neste tempo exista mais teólogos e estudantes de teologia, do que em todas as épocas anteriores somadas justas. Porém, nunca vimos tanta superficialidade e tolice. Que legado deixaremos para a Igreja do futuro? Temo que os cristãos bíblicos do amanhã, olhem para nossa geração e digam: “Vejamos o que não devemos fazer!!”.

Apostasia e reforma; nova apostasia, nova reforma. Temos a impressão de que tais ciclos se repetem de tempos em tempos ao longo da História da Igreja. De qual lado estamos? Te convido a fazer parte do grupo que não abre mão da simplicidade do Evangelho de Jesus...

Paz e bem.
Doutor Bíblia Responde: 
Falsificaram a história de Eva?


Por Marcelo Lemos

Pergunta enviada pela leitora Celina:
“...eu ouvi uma pregação de um famoso, pregador, que a verção de genesis, quando diz que eva comeu a maçã , não é a original , da bibia judaica(pastor judeu), ele disse que a versão verdadeira da conta que EVA COABITOU com a serpente, quer dizer ,ela se relacionou com a serpente( que era um animal muito belo) este animal a seduziu, ela acabou COABITANDO com a serpente e depois coabitou com ADÂO, dai é que nasceu o pecado, pois ela contaminou ADÂO , depois esse animal vira serpente rastejante, isso realmente esta na biblia judaica? ou tora? por favor, espero que possa me responder, DEUS continue te abençoando. obrigada CELINA”.

Irmã Celina, graça e paz; muito obrigado por colaborar com a seção Doutor Bíblia Responde.

Celina, as vezes tenho a impressão de que os evangélicos, nem todos (claro), vivem como que numa eterna montanha russa de emoções. Sim, pois que outro grupo religioso gosta tanto de se lançar, aqui e ali, em ventos de doutrinas, e inovações mil? Haja coração para tantas emoções...


A cada dia surge um novo ensino. Muitas novidades, como neste caso, surgem por um apego místico que os neopentecostais desenvolveram em torno de tudo que é, ou diz ser, “judaico”. Essa gente, observe, acha que o adjetivo “judaico”, serve para santificar as coisas, inclusive a idolatria, a mentira, o engano espiritual, e a loucura. Inicio com tais observações, pois é preciso alertar os cristãos para o fato de que a Bíblia ensina claramente que a Era Judaica já deu o que tinha que dar, e foi anulada, completamente, por Jesus Cristo. Hoje, vivemos na Era da Graça, do Cristianismo; retroceder ao judaísmo, é apostasia espiritual, é doutrina de demônios.

“Este testemunho é verdadeiro. Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sãos na fé; não dando ouvidos as fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens que se desviaram da verdade” - Tito 1.14.

“como te pedi, quando parti para a Macedônia, que ficasse em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina; nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação...” - I Timóteo 1.4.

De modo que, tais advertências, por si só, já deveriam nos fazer tomar distância daqueles “professores bíblicos”, por mais fama tenham, que nos fazem tirar os olhos de Cristo, seduzindo-nos a olhar para o Ministério da Morte, gravado em pedras (II Cor. 3.7).

A Bíblia original dos Judeus

Em primeiro lugar, a afirmação de que a narrativa do Genesis, sobre Eva comendo o fruto proibido, não é “original da Bíblia judaica”, é uma mentira sem tamanho. Meu conselho é que a irmã fuja de tal pregador, pois o Diabo é o pai da mentira. Como um homem assim pode estar em nossos púlpitos? Certamente, se aproveitam da posição que possuem, e abusam da credulidade dos simples. Raça de víboras! Ora, a Bíblia Hebraica, no Antigo Testamento (eles não aceitam o “Novo Testamento”), é justamente a mesma utilizada pelo Cristianismo. Os nomes dos livros, e de alguns personagens, são diferentes; mas, tal fato, se deve apenas as traduções. Também há diferença na ordem em que os livros aparecem no Cannon, e também a quantidade de livros – já que alguns livros foram divididos em dois pelos tradutores, enfim. Mas, quanto ao conteúdo, e a doutrina revelada, não há diferença.

Então, segundo o tal pastor, temos em mãos uma “versão falsificada” das Escrituras, enquanto que ele, judeu, tem conhecimento de uma “versão verdadeira”, que contaria que, na verdade, Eva fez sexo com um belo animal? Pois bem, para desmascarar este engodo das trevas, basta que citemos alguns textos Bíblicos, do Novo Testamento, que validam a versão bíblica que temos em mãos hoje. Alguns exemplos:

“ Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para ttoda boa obra” - II Timóteo 3.13-17.

“Qual é pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em toda a maneira, porque, primeiramente, as palavras de Deus lhe foram confiadas” - Romanos 3.1,2.

Atente para o fato de que o Novo Testamento está validando, como Verdade, o conteúdo das Escrituras Hebraicas. Agora, leve em consideração isto: a maior parte das citações que os escritores do Novo Testamento fazem no Antigo, foram extraídas de uma versão grega chamada LXX (a Versão dos Setenta). De modo que, não é temerário um pastor dizer que o relato de Genesis, que temos hoje em mãos, é falso, quando os inspirados Escritores do Novo Testamento os considerou verdadeiro? Pense nisso.

As fábulas judaicas

Mas, é possível, que o que o pregador famoso, e judeu, tenha tentado dizer, é que, nas lendas judaicas, há uma interpretação diferente para o que aconteceu em Genesis. Mas, neste caso, o problema não é com o relato em si, mas com a interpretação dada a ele. Além disso, os judeus possuem outros relatos sobre a origem do pecado, contidos em outros livros, não inspirados, e que nunca fizeram parte de nenhuma Bíblia, nem mesmo a judaica. É o caso, por exemplo, da famosa lenda de Lilith; que judeus cabalísticos acreditam terem sido criado antes de Eva.

Agora, pesquisando um pouco mais, e entrando no campo das alucinações, existe de fato, uma interpretação mais próxima ao que este pastor parece sugerir. Trata-se de uma interpretação cabalistica, e adotada por grupos “evangélicos” sectários e heréticos. A interpretação é mais ou menos assim:

“Yahweh Elohim criou dois "primeiros homens". O primeiro, sem alma, seria Nachash e teria Lilith por esposa; o segundo, com alma, seria o Adão propriamente dito, com Eva como companheira. Eva teve intercurso com Nachash e depois com Adão; daí teriam nascido Caim, mais semelhante a Nachash e Abel, mais semelhante a Adão, mas nenhum dos dois totalmente "puro", ao contrário de Seth, nascido mais tarde, ao qual foram transmitidos os segredos da Cabala”. (1)

Tal interpretação é aceita, como disse, por grupos heréticos dentro do cristianismo:

“Os evangélicos que aderem a essa concepção, na maioria seguidores de Daniel Parker (1781-1844) e William M. Branham (1909-1967), tendem a imaginar nachash como um homem-macaco, que só depois do pecado original foi punido com a transformação em serpente Dessa relação, teria nascido Caim, ao passo que Abel teria nascido de Adão”. (1)

Que se conclui disso? Podemos ver que a Bíblia que temos em mãos é a mesma dos judeus; exceto, claro, pela diferença entre os livros deuterocanônicos (que não são aceitos por todos). Constata-se ainda, como falsa, a afirmação de que a Bíblia judaica tenha uma versão diferente para a Narrativa do Gênesis. O que pode se dizer, e não mais que isso, é que alguns judeus, místicos, possuem uma lenda, uma interpretação fantasiosa para o a Bíblia diz; no entanto, eles não possuem um versão diferente par ao que está escrito.

O mais grave de tudo, é continuarmos a ver líderes evangélicos seduzidos, e seduzindo o povo de Deus com lendas e fábulas judaicas. Sobre esta apostasia, o apóstolo dá a explicação:

“... virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” - II Timóteo 4.3.

Espero que tenha conseguido responder a sua interessante questão.

Fonte: Novo Olhar Refortmado
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Missões Em Foco

Breve A IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) estará chegando em Sumé-PB. Aguardem novidades!!!

A Pena de Morte no Novo Testamento


Por Presb. Solano Portela


Nossa convicção é de que a imutabilidade de Deus e de seus preceitos e desejos para o homem estabelecem uma harmonia e não uma dissociação e divisão entre o Velho e o Novo Testamento. Os contrastes traçados por Jesus, no Sermão da Montanha (“... ouvistes o que foi dito aos antigos..".) é muito mais um contraste entre a tradição dos anciãos e a verdadeira interpretação da Palavra do Deus, do que entre as determinações do Velho e as do Novo Testamento. 

Vários cristãos, lendo as determinações desse sermão de Jesus, se colocam contra a pena de morte, porque deveríamos "virar o outro lado da face", em vez de procurarmos vingança. Mas a vingança não é nossa prerrogativa, mas do Senhor. Como não é nossa prerrogativa revogar as determinações de justiça dadas por Deus aos governos. No Sermão da Montanha, Jesus não está argumentando contra o princípio de vida por vida, mas está falando contra o nosso desejo pessoal por vingança. Ele não está negando o poder e a responsabilidade do governo. Ele fala a nós como indivíduos, nos ensinando que não devemos tentar assumir ou substituir poderes e responsabilidades que pertencem aos governos. Assim ele nos chama, como indivíduos a amar os nossos inimigos e voltar a outra face. No contexto global do Novo Testamento, entretanto, ele reforça a autoridade dos governos como promotores da lei e da ordem, dos princípios de justiça, entre os quais se encontram a correta aplicação da pena capital. 

Em muitos casos, Jesus amplia as prescrições e o significado das determinações da lei moral do Velho Testamento, mas não as revoga. No Novo Testamento encontramos não a abolição da Lei Religiosa, mas sim a sua complementação e término de sua finalidade em Cristo. Encontramos não a revogação da Lei Civil de Israel, mas sim o registro de uma nação fragmentada, sob o domínio de outra nação e de outras leis, e a determinação profética da dissolução desta mesma nação. Quanto à Lei Moral, encontramos na realidade, afirmações de apoio e exortação da parte de Jesus, e nos demais livros, para o seu cumprimento e manutenção, como expressão maior do nosso amor para com Deus ("...se me amardes, guardareis os meus mandamentos..."). 

No caso específico da pena de morte, temos alguns registros, onde o assunto é mencionado, não havendo indicação de que os pontos básicos de justiça divina tivessem agora sido modificados, para a nossa era. Vamos ver alguns destes trechos: 

1. Mateus 26.52: Jesus disse: "...todos os que lançarem mão da espada, pela espada morrerão". Essa afirmação parece ser um reconhecimento tácito da legitimidade de aplicação da pena capital, como justa punição aos que vivem pela violência e desrespeito à vida. 

2. João 19.11: "... nenhum poder terias contra mim, se de cima te não fosse dado..". Jesus reconhece que o poder de Pilatos de tirar a vida, vem do alto. Ele não contesta este poder, mas o considera legitimo, ainda que aplicado ilegitimamente, no caso de Jesus, e possivelmente fora da proporção dos parâmetros bíblicos, no caso de outras execuções. 

3. Atos 25.11: Paulo, na sua defesa perante Festo, disse: "Se eu cometi algum erro e fiz qualquer coisa digna de morte, não recuso morrer". Verifique que: 

a. Paulo reconhece que existiam crimes dignos de morte. 
b. Paulo informa que não ofereceria resistência ao recebimento da pena de morte. 
c. Paulo, implicitamente, reconhece que alguma autoridade possuía o direito de condenar alguém à morte".

4. Romanos 1.32: "... que são dignos de morte, os que tais coisas praticam..". Paulo reconhece que existem pessoas "dignas de morte" dependendo dos atos praticados. 

5. Romanos 13.1 e versículos seguintes: O conhecido trecho, que especifica as obrigações do governo, já tratado na abordagem dada pela Confissão de Fé, coloca claramente a espada nas mãos do Governo, como instrumento legítimo de punição. A colocação da espada nas mãos do governo é para uma óbvia finalidade, que dispensa mais explicações, 

6. 1 Pedro 2.13-14: "...sujeitai-vos à toda ordenação humana..". Os governos recebem a autoridade das mãos de Deus. Devemos clamar contra as injustiças, mas não recebemos sanção para considera-los ilegítimos aplicadores da justiça, por mais distanciados que estejam de Deus. Não recebemos sanção, de igual modo, para desobedecê-los, mesmo quando são injustos ( "...sujeitai-vos não somente aos bons e humanos, mas também aos maus..".1 Pedro 2:18), a não ser quando nos impelem a que desobedeçamos às próprias determinações de Deus. Neste caso, devemos agir e responder como o próprio Pedro em Atos 5:29: "Mais importa obedecer a Deus, do que aos homens". 

7. Apocalipse 13.10: "Se alguém matar à espada, necessário é que à espada seja morto". Em harmonia com a afirmação de Cristo, em Mateus 26:52, numa inferência de que o princípio de justiça da retribuição, continua válido no Novo Testamento. 

Semelhantemente ao verificado no Velho Testamento, as determinações eternas de Deus não estavam atreladas à bondade ou não dos governos temporais. O governo do contexto do Novo Testamento era bastante injusto, ruim e primitivo, mas mesmo assim a legitimidade dos governos não foi retirada e nem as responsabilidades de aplicação da justiça correta revogada. Seria diferente, em nossos dias? 



A Pena de Morte e o Decálogo

As Tábuas da Lei 

Na dádiva das "Tábuas da Lei", ou seja nos Dez Mandamentos (Ex. 20.1-13), Deus resumiu a sua Lei Moral apresentando-a formalmente, e registrando-a, sucinta e objetivamente, para o benefício do seu povo. 

É interessante atentar para o contexto histórico da ocasião. Foi a primeira vez que Deus falou coletivamente ao Seu Povo. Existiram inúmeras preparações necessárias para ouvi-lo, relatadas a partir do capítulo 19. O temor do povo perante a santidade de Deus era impressionante! Após ouvi-lo inicialmente, o povo suplicou a Moisés que intermediasse este contato com Deus, tamanho era o temor. O incidente da dádiva da ei, e os acontecimentos que se seguiram, evidenciam a fragilidade do Povo de Deus e do homem, em geral. Após tal demonstração de poder e santidade, logo se esqueceram de suas obrigações e, demonstrando ingratidão, caíram em idolatria. Isto mostra o desprezo do ser humano, caído, pela lei. 

Os Dez Mandamentos estabelecem obrigações e limites para o homem. O seu estudo aprofundado mostra a sabedoria infinita de Deus, bem assim como a harmonia reinante em Sua Palavra. Revela também nossa insignificância perante Ele, nossa dependência e necessidade de redenção, em virtude do nosso pecado. Todas as pessoas pecaram em Adão e desde então somos incapazes de cumprir a lei de Deus. 

Os Dez Mandamentos reforçam nossas obrigações para com os nossos semelhantes, em todos os sentidos. Entre estas obrigações, está a de preservarmos a vida desses. Inferimos, também, que as sanções divinas, sobre a quebra destes mandamentos, carregam o peso e a importância anteriormente ordenadas por Deus. 


Jesus Cristo e os Dez Mandamentos 

Um incidente bíblico reafirma a validade da Lei Moral de Deus em todos os tempos, tanto na antiga como na nova aliança, e relaciona a lei com amor. Encontramos ele em Mt 22.34-40. Os Fariseus não estavam inquirindo em sinceridade, mas queriam, como sempre, confundir a Jesus. Perguntaram a ele qual o maior dos mandamentos. Eles se entregavam a esse tipo de discussão continuamente e geravam grande controvérsia, com a defesa de um ou de outro mandamento. Nesse sentido, pensavam que qualquer que fosse a resposta de Jesus, iriam indispô-lo com um grupo ou com outro. Jesus, entretanto, não cita nenhum mandamento específico do decálogo, mas faz referência, conjuntamente, a dois trechos conhecidos das Escrituras (Dt 6.5 e Lv 19.18), fornecendo um resumo dos dez mandamentos: 

Os dez mandamentos podem ser divididos da seguinte forma: 

Mandamentos 1 a 4 - Nossas obrigações para com o nosso criador Deus.

Mandamentos 5 a 10 - Nossas obrigações para com o nossos semelhantes.
Jesus apresenta exatamente esse entendimento da Lei, em Mt 22.37-40: 

Mandamentos 1 a 4 - “Nossas obrigações para com Deus”
V. 37 " Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento.

Mandamentos 5 a 10 - “Nossas obrigações para com o próximo”
V. 39 " Amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Não encontramos, portanto, Jesus Cristo, descartando a lei, mas cumprindo-a e resumindo-a em declarações do próprio Antigo Testamento. O seu ensino expande o entendimento anterior. Deus está interessado não apenas no cumprimento externo da lei " naquele evidenciado aos circunstantes, mas naquele cumprimento que procede de uma profunda convicção interna: do amor tanto por Deus como pelo próximo. Esse é o cumprimento que surge de uma vida transformada, tocada e operada pelo Espírito Santo de Deus. O verdadeiro amor se demonstra em ações concretas que agradam a Deus, pelo cumprimento de suas diretrizes (Jo 14.15 " "se me amais, guardareis os meus mandamentos"). 

Com efeito, Jesus Cristo demonstra sua afirmação de que não veio para anular, ou abolir, a Lei, mas sim para cumpri-la, em outro incidente. Referimo-nos ao encontro com o Jovem Rico, registrado em Mateus 19.16-26 e em Marcos 10.17-22. Note o desenvolvimento do que ocorreu, naquela ocasião: 

a) O jovem apresentou-se como tendo cumprido todos os mandamentos, mas mesmo assim inquiria como alcançar a vida eterna. 
b) Jesus começou perguntando sobre os últimos 6 mandamentos, um a um... (nossas obrigações para com os nossos semelhantes).
c) Ele respondeu que tudo aquilo havia cumprido. 
d) Jesus, entretanto, não chegou a enunciar o último mandamento (Não cobiçarás...).
e) Em vez disso colocou um teste prático sobre a cobiça, mandando que ele vendesse tudo o que tinha e distribuísse com os pobres. 
f) Nesse momento ele evidenciou a cobiça existente no seu coração e retirou-se triste, mostrando que não cumprira nem o primeiro mandamento, pois amava algo, mais do que a Deus. 
g) Note que Jesus, nunca aventou a possibilidade de que aquelas obrigações eram hipotéticas ou superadas pela "nova dispensação", ou de que o Jovem Rico não estava mais "sob a Lei Moral de Deus, mas sob a Graça". Em vez disso, Cristo derrotou o argumento dentro da própria obrigação que o jovem possuía, de cumprir a lei, demonstrando que sua alegação de cumprimento era falsa. 

Consideramos, desta forma, a Lei Moral de Deus válida para nossa época. A santidade da vida do homem, criado à imagem e semelhança de Deus, contida nesta Lei, ainda subsiste. Subsistem, consequentemente, as sanções à retirada desta vida, ou seja a aplicação da pena de morte não foi revogada, como estamos ainda a demonstrar.


O 6º Mandamento e a Pena de Morte 

Muitos tentam encontrar no 6º Mandamento uma proibição à aplicação da pena de morte, dizendo que o "Não matarás", proibiria qualquer execução. O argumento é curioso, porque via de regra é aplicado justamente por aqueles que negam a validade da Lei Moral de Deus para os nossos dias, mas utilizam esta mesma lei quando lhes é conveniente. Nosso entendimento, é de que precisamente o sexto mandamento reforça a aplicação da pena de morte, ou seja, ele não é, em momento algum, uma proibição à aplicação da pena capital. 

Este mandamento (Ex. 20.13) enfatiza a santidade da vida. O que temos aqui, é Deus dando uma determinação bastante objetiva, proibindo o assassinato. A palavra, no original, ocorre 49 vezes no Antigo Testamento, sempre para descrever o assassinato premeditado. Nunca é utilizada com relação a animais, Deus, anjos, ou na morte de inimigos no campo de batalha. O mandamento não está ensinando que toda a morte é errada. O "não matarás", aqui, significa, muito corretamente, não cometerás assassinato.

Ou seja: nenhum indivíduo tem o direito de tirar a vida de outro. A proibição não se aplica, portanto, aos governos constituídos que, exercitando o mandato e a autoridade concedida por Deus, passassem a aplicar a justiça e a reforçar o sexto mandamento, com a aplicação da pena de morte. Isso é óbvio porque a própria Lei Civil de Israel, prescrevia a pena de morte em várias instâncias e ocasiões exatamente pela quebra do sexto mandamento " por exemplo, Ex 21.12 e Nm 35.16-21. Com efeito, nenhum profeta ou pronunciamento registrado na Palavra de Deus levanta a possibilidade de que estas leis civis de Israel, também dadas por Deus, estivessem contrárias ao sexto mandamento. 

A santidade da vida é uma determinação divina. Por inferência, todas as ações que prejudiquem a integridade física do próximo, são passos preliminares no atentado à vida e constituem quebra do 6º Mandamento. 

A visão bíblica da santidade da vida, encontrada neste Mandamento e em outras passagens da Palavra de Deus, contrasta com os costumes dos povos pagãos daquela época, que rodeavam a nação de Israel, onde a vida humana era algo sem consideração ou valor, ao ponto de muitas cerimônias religiosas prescreverem o sacrifício humano, de forma banal e corriqueira. Esse ponto é enfatizado por Walter Keiser, no seu livro Old Testament Ethics " "A Lei antiga do oriente prescrevia a pena de morte para crimes contra a propriedade, mas no Velho Testamento nenhum crime contra a propriedade é merecedor da pena capital. Mais uma vez, o ponto focal é o de que a vida é sagrada, não as coisas são sagradas. Qualquer que pretendesse destruir a qualidade sagrada da vida cometia uma ofensa capital contra Deus".

Como vimos anteriormente, a Bíblia diz que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, sendo esta uma das principais razões por que sua vida deve ser respeitada (Gen 9.6). Hoje em dia, observamos cada vez mais uma vulgarização da vida, com o aumento gradativo da criminalidade e da impunidade que assola a nossa sociedade. 

Voltando ao Princípio da Retribuição 

Quando tratamos sobre a questão da Lei Civil de Israel, sobre os crimes e suas punições, dissemos que a não aplicabilidade da Lei Civil aos nossos dias não deveria nos isentar de pesquisarmos os princípios por trás daquela legislação. Como já nos referimos, naquela ocasião, um dos princípios básicos nas punições, era o da retribuição. 

A pena de morte, estabelecida por Deus previamente à Lei Civil, obedece a este princípio da retribuição. No detalhamento da Lei Civil ou Judicial, do Estado de Israel, aprendemos também que a execução desta sentença não foi dada desqualificadamente a indivíduos ou organizações fora do governo constituído. Estes não possuem nenhum direito sobre a vida de quem quer que seja, por mais legítima que venham a parecer as causas ou razões. A prova disto é a própria instituição das Cidades de Refúgio, estabelecidas por Deus em Números 35.9-34. Naquelas cidades, até os assassinos confessos e declarados mereciam proteção temporária da fúria vingativa dos parentes próximos das pessoas assassinadas, pois o direito de fazer pagar a vida com a vida não havia sido delegado indiscriminadamente aos parentes ou aos amigos, mas à instituição do governo e somente após o julgamento devido. Uma vez aferida a real culpa do acusado, o parente próximo poderia até ser o executor, mas não recebia sanção para cometer injustiça, para sair matando dando vazão à sua fúria. 

Por estes princípios, o crente deve ser contra os grupos de extermínio, os chamados vigilantes "muitas vezes contratados por comerciantes para "limpar" a área; contra os linchamentos realizados por turbas de populares enfurecidos " a maioria dos quais sem qualquer conhecimento até do crime real praticado, e todos agindo fora de qualquer procedimento legal; contra qualquer ação de execução sumária " muitas vezes quando o prisioneiro já está dominado, e quando vidas não estão mais sendo ameaçadas " praticada fora do legítimo processo de justiça por muitos policiais. Essas ações e essas pessoas que assim agem, dando a aparência de execução de justiça, promovem na realidade a ausência de ordem, anarquia e a desconsideração pela vida. Elas eliminam a possibilidade de verificação isenta dos fatos e dos possíveis crimes cometidos e a aplicação das justas penalidades. Estes grupos de pessoas quebram, na realidade, o sexto mandamento, e agem contra o princípio de santidade da vida, ali estabelecido. 

Por outro lado, os argumentos pragmáticos, contra a pena de morte, por mais aparentemente verdadeiros que sejam, tais como: "...os nossos governos e governantes são imorais e não podem praticar a justiça, nem receber esta delegação...", não podem se sobrepor às determinações de Deus. Por mais ilegítimos que sejam os governos, estas determinações de Deus permanecem legítimas. Os governantes de Israel nem sempre foram justos, corretos e tementes a Deus. Na realidade, em sua maioria, desrespeitaram abertamente a Deus e a suas Leis, abraçando a idolatria. Nunca, entretanto, encontramos qualquer profeta indicando: "Vamos dar um tempo e suspender as aplicações da Lei de Deus, até que um governo bom e justo venha a se instalar em nosso país...". Pelo contrário, a mensagem profética era sempre no sentido de chamar também os governantes à obediência destas mesmas leis. Ao defendermos algo que é determinado por Deus, devemos ter coragem e ousadia, mesmo caminhando contra a corrente e pensamentos modernos, talvez politicamente "corretos", mas que apresentam soluções estranhas aos parâmetros de justiça de Deus. 

A Teologia da Reforma e a Pena de Morte - Aspectos Confessionais 

1. A opinião de João Calvino

As palavras seguintes, extraídas de um dos comentários de Calvino, não deixam dúvidas com relação à sua posição sobre a aplicação da pena capital. Escreve Calvino: "Quando Deus diz que ele requererá a punição dos animais quando violarem a vida de um homem, Ele nos dá isto como um exemplo. Se, tomando o lado do homem, Ele se enfurece contra a criatura bruta, apressadas por uma impetuosidade de alimentação, em cair sobre o homem, o que será de um homem que, injusta e cruelmente, contrariando o sentido da natureza, ataca um de seus irmãos?".

2. A Confissão de Fé de Westminster (1643-1649)

Aqueles que abraçam os ideais da reforma e a interpretação calvinista das Sagradas Escrituras, na crença de que ela faz justiça à Revelação de Deus para o ser humano, e de que representa uma das melhores formas de sistematização das verdades bíblicas, freqüentemente "esquecem" de consultar as confissões de fé do período e de suas denominações, sobre estes temas polêmicos e atuais. Tome-se o caso da Confissão de Fé de Westminster, por exemplo. Ela não silencia quanto ao assunto da pena de morte. Na realidade, ela é bastante específica. Não podemos simplesmente descartar o assunto como sendo apenas "um reflexo histórico" da Igreja. O que temos na Confissão de Fé, com efeito, é o reflexo do que os teólogos, que a formularam, acreditavam expressar da forma mais exata possível os ensinamentos da Palavra de Deus. Muitas vezes, as convicções bíblicas registradas na Confissão de Fé de Westminster, foram corajosamente colocadas em contradição ao contexto histórico em que estavam vivendo aqueles servos de Deus. 

No capítulo XXIII da Confissão de Fé, intitulado "Do Magistrado Civil", encontramos a referência ao governo civil, e de que Deus os "...armou com o poder da espada" para atuação em quatro áreas: 

Para defesa dos bons 
Para incentivo dos bons, 
Para castigo dos malfeitores 
Para fazer licitamente a guerra, havendo ocasiões justas e necessárias. 

Da mesma forma que a execução de uma guerra implica em mortes, é óbvio que a utilização da espada, no castigo dos malfeitores, implica na pena de morte, dentro dos limites de utilização e de autoridade delegada e traçada por Deus. 

3. O Catecismo Maior (Perguntas 135 e 136)

O Catecismo Maior é uma extensão da Confissão de Fé e nos ajuda em sua interpretação. Ele foi formado com a finalidade didática de ensinar as doutrinas expostas na Confissão de Fé, seguindo aproximadamente o mesmo roteiro e desenvolvimento. Nas perguntas Nº 135 e 136, e suas respectivas respostas, encontramos afirmações que não deixam margens a dúvidas, que aqueles teólogos consideravam a pena de morte bíblica e aplicável. Estavam isentos e imunes dos argumentos humanistas que posteriormente viriam a permear as convicções éticas, práticas e teológicas do mundo evangélico. Ali lemos: 

Pergunta 135--Quais são os deveres exigidos no sexto mandamento? 
Resposta: ...todo o cuidado e todos os esforços para preservar a nossa vida e a de outros.

Pergunta 136--Quais são os pecados proibidos no sexto mandamento? 
Resposta: ... o tirar a nossa vida ou a de outrem, exceto:
a. no caso da justiça pública,
b. no caso de guerra legítima,
c. no caso de defesa necessária.

Sem sombra de dúvida, temos que reconhecer que a Confissão de Fé de Westminster considera a Justiça Pública, como sendo a legítima aplicadora da pena capital, pelos padrões bíblicos de justiça, visando a santidade e a preservação, em última análise, da vida dos cidadãos. 

A Pena de Morte no Novo Testamento 

Nossa convicção é de que a imutabilidade de Deus e de seus preceitos e desejos para o homem estabelecem uma harmonia e não uma dissociação e divisão entre o Velho e o Novo Testamento. Os contrastes traçados por Jesus, no Sermão da Montanha (“... ouvistes o que foi dito aos antigos..".) é muito mais um contraste entre a tradição dos anciãos e a verdadeira interpretação da Palavra do Deus, do que entre as determinações do Velho e as do Novo Testamento. 

Vários cristãos, lendo as determinações desse sermão de Jesus, se colocam contra a pena de morte, porque deveríamos "virar o outro lado da face", em vez de procurarmos vingança. Mas a vingança não é nossa prerrogativa, mas do Senhor. Como não é nossa prerrogativa revogar as determinações de justiça dadas por Deus aos governos. No Sermão da Montanha, Jesus não está argumentando contra o princípio de vida por vida, mas está falando contra o nosso desejo pessoal por vingança. Ele não está negando o poder e a responsabilidade do governo. Ele fala a nós como indivíduos, nos ensinando que não devemos tentar assumir ou substituir poderes e responsabilidades que pertencem aos governos. Assim ele nos chama, como indivíduos a amar os nossos inimigos e voltar a outra face. No contexto global do Novo Testamento, entretanto, ele reforça a autoridade dos governos como promotores da lei e da ordem, dos princípios de justiça, entre os quais se encontram a correta aplicação da pena capital. 

Em muitos casos, Jesus amplia as prescrições e o significado das determinações da lei moral do Velho Testamento, mas não as revoga. No Novo Testamento encontramos não a abolição da Lei Religiosa, mas sim a sua complementação e término de sua finalidade em Cristo. Encontramos não a revogação da Lei Civil de Israel, mas sim o registro de uma nação fragmentada, sob o domínio de outra nação e de outras leis, e a determinação profética da dissolução desta mesma nação. Quanto à Lei Moral, encontramos na realidade, afirmações de apoio e exortação da parte de Jesus, e nos demais livros, para o seu cumprimento e manutenção, como expressão maior do nosso amor para com Deus ("...se me amardes, guardareis os meus mandamentos..."). 

No caso específico da pena de morte, temos alguns registros, onde o assunto é mencionado, não havendo indicação de que os pontos básicos de justiça divina tivessem agora sido modificados, para a nossa era. Vamos ver alguns destes trechos: 

1. Mateus 26.52: Jesus disse: "...todos os que lançarem mão da espada, pela espada morrerão". Essa afirmação parece ser um reconhecimento tácito da legitimidade de aplicação da pena capital, como justa punição aos que vivem pela violência e desrespeito à vida. 

2. João 19.11: "... nenhum poder terias contra mim, se de cima te não fosse dado..". Jesus reconhece que o poder de Pilatos de tirar a vida, vem do alto. Ele não contesta este poder, mas o considera legitimo, ainda que aplicado ilegitimamente, no caso de Jesus, e possivelmente fora da proporção dos parâmetros bíblicos, no caso de outras execuções. 

3. Atos 25.11: Paulo, na sua defesa perante Festo, disse: "Se eu cometi algum erro e fiz qualquer coisa digna de morte, não recuso morrer". Verifique que: 

a. Paulo reconhece que existiam crimes dignos de morte. 
b. Paulo informa que não ofereceria resistência ao recebimento da pena de morte. 
c. Paulo, implicitamente, reconhece que alguma autoridade possuía o direito de condenar alguém à morte".

4. Romanos 1.32: "... que são dignos de morte, os que tais coisas praticam..". Paulo reconhece que existem pessoas "dignas de morte" dependendo dos atos praticados. 

5. Romanos 13.1 e versículos seguintes: O conhecido trecho, que especifica as obrigações do governo, já tratado na abordagem dada pela Confissão de Fé, coloca claramente a espada nas mãos do Governo, como instrumento legítimo de punição. A colocação da espada nas mãos do governo é para uma óbvia finalidade, que dispensa mais explicações, 

6. 1 Pedro 2.13-14: "...sujeitai-vos à toda ordenação humana..". Os governos recebem a autoridade das mãos de Deus. Devemos clamar contra as injustiças, mas não recebemos sanção para considera-los ilegítimos aplicadores da justiça, por mais distanciados que estejam de Deus. Não recebemos sanção, de igual modo, para desobedecê-los, mesmo quando são injustos ( "...sujeitai-vos não somente aos bons e humanos, mas também aos maus..".1 Pedro 2:18), a não ser quando nos impelem a que desobedeçamos às próprias determinações de Deus. Neste caso, devemos agir e responder como o próprio Pedro em Atos 5:29: "Mais importa obedecer a Deus, do que aos homens". 

7. Apocalipse 13.10: "Se alguém matar à espada, necessário é que à espada seja morto". Em harmonia com a afirmação de Cristo, em Mateus 26:52, numa inferência de que o princípio de justiça da retribuição, continua válido no Novo Testamento. 

Semelhantemente ao verificado no Velho Testamento, as determinações eternas de Deus não estavam atreladas à bondade ou não dos governos temporais. O governo do contexto do Novo Testamento era bastante injusto, ruim e primitivo, mas mesmo assim a legitimidade dos governos não foi retirada e nem as responsabilidades de aplicação da justiça correta revogada. Seria diferente, em nossos dias? 

Existem Situações em que a Pena de Morte foi Comutada, na Bíblia? 

Alguns dizem que em duas instâncias na Palavra de Deus a pena de morte foi comutada, portanto a vontade de Deus seria a sua não aplicabilidade. Não concordamos com esta conclusão. Em primeiro lugar, esses dois trechos falam da aplicação da pena de morte não por assassinato, como prescreve a sua instituição, em Gn 9.6, e o seu enraizamento com a lei moral de Deus (quebra do sexto mandamento), mas na situação específica de adultério " contra o qual a lei civil de Israel aplicava a pena capital. Vejamos os dois casos: 

1. O caso do adultério de David (2 Samuel 11 e 12). Quando examinamos esse incidente concluímos que Deus lidou pessoal e especificamente com a questão. A punição a ser aplicada seria, consequentemente, sua prerrogativa, independentemente de qualquer legislação, diga-se de passagem, dada pelo próprio Deus, para uma aplicação generalizada. O adultério de David levou a pecados maiores " ele tornou-se mandante de um assassinato, demonstrando a intensidade da espiral do pecado. Os que procuram ver nesse incidente apenas a operação do perdão de Deus terão que explicar a questão ainda mais difícil de perda da vida da criança, do filho de David, que sobreveio a ele, da parte de Deus, como conseqüência direta do seu pecado. 

2. O caso da Mulher adúltera (João 7:53-8:11). Sem entrar na polêmica da contestação textual da passagem, o que vemos é que Jesus chamou para si a administração da questão, exercitando suas prerrogativas de perdão, mas, principalmente, ele não permitiu um processo indevido sem testemunhas. A forma pela qual a turba queria apedrejá-la, contrariava os preceitos da própria lei mosaica. O encaminhamento que Jesus deu à questão, não significa uma rejeição da pena em si. Em adição a isso, devemos considerar o contexto do incidente. Temos, mais uma vez os Fariseus, que tentavam "pegar" Jesus em uma armadilha, jogando-o contra a lei judaica ou romana. Se ele concordasse com o apedrejamento, quebraria a lei romana. Se rejeitasse tal punição, quebraria a lei mosaica (Lv. 20.10; Dt. 22.22). A resposta dada por Jesus sabiamente evitou a armadilha, mandando o que não tivesse pecado jogar a primeira pedra. Isso não é uma abolição da pena de morte. Além dessas considerações, temos que entender que ela é uma passagem histórico/descritiva e não prescritiva. Os princípios e penalidades foram estabelecidos em outros trechos da Palavra de Deus. 



FONTE: Direito Reformacional