quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Calvinismo e a Velha Heresia Arminiana

Gunnar Lima

O nosso estudo visa ser apenas introdutório acerca do Calvinismo. Fazendo levar cada um a uma reflexão quanto à fé que professam. Mesmo sem saber muitas vezes, somos armianianos em nossa teologia ou quando não, somos ensinados nos fundamentos de uma crença com elementos puramente humanistas (Não acreditamos na justificação pela fé somente). O debate entre Calvinismo e Arminianismo é antigo e vem de muitas épocas, assumindo através da história vários nomes e grandes defensores que marcaram a teologia da Igreja. A lista desses defensores da Fé Bíblica é enorme e cobre muitas páginas. São eles numa ordem mais importante para o estudo:

Agostinho versus Pelágio
Agostinho Versus João Cassiano (Semipelagianismo)
Lutero Versus Erasmo
Gomaro versus Arminius (Os Remonstrantes)

Alista é quase sem fim, pois a cada instante surge um arminiano que conhece as “Antigas” doutrinas da graça tornando-se calvinista, da mesma forma em cada igreja pentecostal cresce o número de armianianos. A razão disso é que a velha heresia arminiana está na raiz do coração do homem não regenerado. Todos nós nascemos arminianos como afirmou Charles Spurgeon (1843-1892), e cabe tão somente a graça de Deus fazer-se conhecida. Assim, de forma breve, vejamos o que é e o que ensina o Calvinismo versus Arminianismo quanto à salvação do pecador. Mas antes, olhemos para o pano de fundo histórico para compreender melhor o nosso assunto.

Agostinho versus Pelágio

Agostinho fora um dos maiores Pai da Igreja que viveu no IV século da era cristã. Foi capaz de influenciar a Idade Média e a Reforma no século XVI. Podemos afirmar que tenha sido um pré-calvinista onde teve lampejos da graça divina, antes do Reformador Calvino. Este grande mestre e bispo de Hipona da África do Norte, combateu de forma magistral a heresia de Pelágio, monge irlandês ou galês que apareceu em Roma por volta de 400 d.C. O ensino de Pelágio consistiu em negar o pecado original (palavra cunhada por Agostinho) que significa o estado de depravação que se seguiu à transgressão de Adão. Trata-se da raiz principal do pecado e de todos os males. Pelágio afirmava que não somos pecadores por natureza, mas pecamos por imitação.
O ensino do monge irlandês era nocivo à Fé cristã. Ao negar o pecado original, Pelágio passou a enfatizar o livre-arbítrio humano, por não ter sido a vontade do homem totalmente escravizada pelo pecado. Segundo Wright
As idéias de Pelagio foram energeticamente refutadas por Agostinho em uma séria de estudos agora conhecidos como escritos antipelagianos. O pelagianismo foi finalmente condenado como uma heresia nos Concílios de Cartago (418), Éfeso (431) e Orange II (529). A partir de então e a até Reforma, a igreja ocidental foi principalmente agostiniana no seu entendimento da livre graça (WRIGHT, 1998, pg. 22).
Outro renomado escritor resume muito bem o ensino herético ao afirmar:
Pelágio, destituído da idéia do todo orgânico da raça ou da natureza humana, via Adão meramente como indivíduo isolado; ele não deu a Adão nenhum lugar representativo, logo seus atos não acarretavam conseqüências além de si mesmo. Em sua visão, o pecado do primeiro homem consistiu de um único e isolado ato de desobediência ao comando divino. Juliano o compara à ofensa insignificante de uma criança que se permite ser desencaminhada por alguma tentação sensual, mas que depois se arrepende de sua falha... Esse ato de transgressão único e desculpável não gerou conseqüências à alma e nem ao corpo, muito menos à sua posteridade, onde todos se mantêm ou caem por si mesmos (Apud, SPROUL, 2001, pg. 35).    
Em Éfeso (431) foi realizado o terceiro conselho ecumênico realizado um ano após a morte de Agostinho, condenando assim o pelagianianismo escreveu Sproul. Schaff faz o seguinte comentário acerca do pensamento pelagiano:
Se a natureza humana não é corrupta, e a vontade natural é competente para todo bem, não precisamos de um Redentor para criar em nós uma nova vida, mas apenas de alguém que nos melhore e enobreça; e a salvação é, essencialmente, obra do homem. O sistema pelagiano realmente não tem lugar para as idéias de redenção, expiação, regeneração e nova criação. Ele as substituiu pelos nossos próprios esforços de aperfeiçoar os nossos poderes naturais e a mera adição da graça de Deus como suporte e ajuda valiosa (...) (Apud, SPROUL, Op.Cit, p.43).

Agostinho versus João Cassiano (O semipelagianismo)

João Cassiano foi discípulo de Pelágio e oponente ferrenho da teologia de Agostinho. O semipelagianismo foi o ensino precursor do arminianismo do século XVII e, acima de tudo da igreja de Roma. Cassiano concordava em parte com Agostinho quanto à questão do pecado original, mas afirmava que este pecado não deixava tolhida a capacidade de decisão do pecador, nasce assim, o sistema antibíblico de salvação por obras ou a cooperação do homem com a graça de Deus.
Sproul com muita propriedade diz:
Para Agostinho, a vontade do homem, embora ainda capaz de fazer escolhas é moralmente incapaz de se inclinar em direção ao bem. A vontade não é espiritualmente débil, mas espiritualmente morta. Apenas a graça eficaz de Deus pode libertar o pecador para crer (...). Cassiano e o semipelagianismo são, com relação ao passo inicial do pecador em direção à salvação, decididamente sinergísticos. Deus torna sua graça disponível ao pecador, mas o pecador deve, com sua vontade débil, cooperar com essa graça a fim de ter fé ou para ser regenerado. A fé precede a regeneração. Para Agostinho, a graça da regeneração é monergística. Isto é, a iniciativa divina é uma condição prévia necessária para fé (SPROUL, 2001, pg.75).

Na obra História da Igreja Cristã Schaff comenta:
Em oposição a ambos os sistemas [pelagianismo e agostinianismo], ele [Cassiano] pensava que a imagem divina e a liberdade humana não haviam sido aniquiladas, mas apenas enfraquecidas pela queda; em outras palavras, que o homem estava doente, mas não morto, que não podia, de fato, ajudar-se, mas podia desejar a ajuda de um médico e aceitá-lo ou recusa-la quando oferecida, e que ele devia cooperar com a graça de Deus na sua salvação (Apud, SPROUL, 2001, pg. 77).  
O ensino do Concilio de Trento que foi a resposta da igreja Católica Romana a teologia bíblica dos Reformadores, mostra de forma categórica ser a heresia do livre-arbítrio a pedra fundamental dos seus dogmas, pois afirma entre as muitas maldições lançadas contra os teólogos Reformados o seguinte:
Se alguém disser que o livre-arbítrio do homem [quando] movido e despertado por Deus, por consentimento ao chamado e ação de Deus, não coopera de forma alguma com respeito ao inclinar-se e preparar-se para obter a graça da justificação, [e] que ele não pode recusar seu consentimento se o desejar, mas que, como algo inanimado nada faz e é meramente passivo, que seja anátema (Apud, SPROUL, 2001, pg. 80).
Qual o ensino dos Reformadores? Não é que após a queda os homens são incapazes de crer? Que são passivos na regeneração? Que não cooperam de forma alguma com a graça? Que nem mesmo pode se quer se preparar para tal coisa? Não estaria esse novo evangelho de mão dadas com Roma ao querer afirmar, uma cooperação entre Deus o pecador?

A Reforma Protestante (Lutero Versus Erasmo)

Podemos afirmar que a Reforma eclodiu na Alemanha fazendo nascer as maiores mentes que o mundo não era digno de conhecer! Todos de alguma forma tiveram e têm conhecimento deste evento no século XVI. As Igrejas de modo geral lembram o seu dia em 31 de Outubro, apenas como uma referência histórica não levando em conta toda a sua herança doutrinal e importância para a crise que vivemos seja no campo litúrgico ou na vida prática.
Segundo Wright:
Os Reformadores foram todos agostinianos de fato, Martinho Lutero começou a sua carreira como um monge agostiniano. John Wyclife (e seu discípulo Jan Hus), Ulrich Zwinglio, Marinho Lutero e João Calvino, todos negaram o livre-arbítrio em qualquer sentido que poderia ser aceito pelos arminianos, considerando-o como totalmente incompatível com a graça gratuita (WRIGHT, 1998, pg.27).
Mesmo vendo esses Reformadores se divergirem entre si, sendo o Reformador francês João Calvino (1509-1564), aquele que veria ser a mente e o exegeta por excelência da Reforma Protestante; fazendo surgir a partir da exposição fiel das Escrituras o Cristianismo e o homem Reformada; podemos afirmar que algo mais os unia de maneira perfeita.
(...) Para os reformadores, a questão crucial não era simplesmente se Deus justifica os crentes sem as obras da lei. Era a questão mais ampla, se os pecadores são totalmente impotentes nos seus pecados, e se devemos pensar que Deus os salva mediante uma graça invencível, incondicional e livre, não apenas os justificando em nome de Cristo quando chegam à fé, mas também os ressuscitando da morte do pecado pelo estímulo do Espírito a fim de conduzi-los para a fé (Apud, SPROUL, 2001, pg. 19).
Leith no seu livro A Tradição Reformada diz o seguinte:
Os teólogos reformados foram além e declararam que Deus não somente chamou todas as pessoas à existência, mas também elegeu-as, ou pelos menos a algumas, para um destino elevado e santo(..). Para Calvino, a predestinação era a maneira mais enfática de dizer que a salvação é trabalho da graça de Deus, assim como a justificação pela graça, através da fé, era a maneira mais enfática de Lutero afirmar a mesma coisa (LEITH, 1996, pg. 156).
A soberania de Deus e a livre graça eram vínculos que unia homens tão diferentes entre si. A história registra de maneira memorável um embate entre um gigante da Fé evangélica e um grande pastor que se voltou para o catolicismo romano. De um lado, um erudito humanista da Renascença do norte que publicou o Novo Testamento em grego (1516), por nome de Erasmo de Roterdã. O escritor Wright que citamos acima nos diz que “ele queria reformar a vida da igreja sem, contudo, mudar a sua teologia. Ele era mais moralista do que um teólogo analítico” (WRIGTH, Op. Cit. 1998, Pg. 27).
Do outro lado, temos um retrato de um homem sem muita expressão facial, típico de um alemão do século XVI cujas convicções após a leitura de Romanos, comentado por Santo Agostinho mudaram drasticamente sua vida e o mundo, passando a considerar a graça de Deus como o Sumo favor dos céus aos pecadores.
No prefácio da obra resumida intitulada Nascida Escravo (2001) que foi feita da obra magna a Escravidão da Vontade (1525), lemos a mais bela refutação a Erasmo concernente a crença pagã do livre-arbítrio.
A questão é: Possui o homem algo chamada “livre-arbítrio”? Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Cristo, para ser salvo de seus pecados? Erasmo respondia com  um “Sim”! Lutero, com um ressoante “Não”! Lutero estava convencido de que o conceito do “livre-arbítrio” fere no âmago a doutrina bíblica da salvação exclusivamente pela graça divina. Necessitamos ter a mesma convicção. Precisamos combater o “livre-arbítrio” tão vigorosamente quanto o fazia Lutero. Erasmo, o seu opositor, dizia: “Posso conceber o ‘livre-arbítrio’ como um poder da vontade humana, mediante o qual um homem pode aplicar-se àquelas coisas que conduzem à eterna salvação, ou pode afastar-se delas”. A isso devemos replicar com um resoluto “Não! O homem já nasce como escravo do pecado!” O homem não é livre (LUTERO, 2001, pg.5).
A Reforma e a Teologia dos Reformadores estão apoiadas bem como fundamentados nos tão conhecidos Solas (Somente) da Reforma Protestante. Ao afirmarem que somente a fé sem as obras e somente a graça sem esforço ou cooperação humana é que podem salvar o pecador, todo o sistema de salvação por obras estava sendo comprometido pela teologia bíblica. Quando Erasmo escreveu Tratado Sobre a Liberdade da Vontade (1524), ele tão somente sonhou com um homem supostamente livre, mas logo acordado com o grito da Escritura sendo ressoado da boca do monge Lutero.    

Holanda 1610

Gomaro versus Arminius (Os remonstrantes)

No século 17 surgiu o nome Tiago Armínio (1560-1609). Foi primeiramente pastor e depois professor, crendo a princípio nas “Antigas” doutrinas da graça, mas sendo influenciado pelos escritos semipelagianos e por sua vez encontrando abrigo em Erasmo que acabamos de comentar. Armínio começou a ensinar um evangelho segundo a capacidade do homem, antes não foi assim, quanto à queda afirmou:
Nesse estado, o livre-arbítrio do homem em direção ao verdadeiro Bem fica não apenas ferido, mutilado, débil, torto e enfraquecido [attenuatem], mas também prisioneiro [captivam], destruído e perdido. E seus poderes não são apenas debilitados e inúteis a não ser que sejam assistidos pela graça, como não tem quaisquer podres exceto os que são despertados pela graça divina (Apud, SPROUL, 2001, pg. 137).
Escreveu ser os comentários de Calvino os melhores livros para leitura depois da Bíblia. “Eu exorto os estudantes que depois das Sagradas Escrituras leiam os comentários de Calvino, pois eu lhes digo que ele é incomparável na interpretação das Escrituras” (Apud, MAIA, 2007, Pg. 116). Podemos dizer que há uma fase na vida do herege em que é ortodoxo, mais logo que sua “vista começa a escurecer e a caneta a escorregar da mão”, surge à heresia – demonstrando para todos o que é. Foi assim, que nasceu o arminianismo.
Sproul nos diz que:
O próprio Arninio saiu de um sistema calvinista e abraçou muitos princípios do calvinismo histórico. Ele frequentemente queixava-se, num espírito moderado, sobre as diversas formas nas quais era deturpado. Ele amava as obras de Agostinho e, em muitos circunstancias, buscou advogar a causa agostiniana. (SPROUL, Op. Cit pg. 138).
Ainda que educado na tradição reformada, ele se inclinou para doutrinas humanistas de Erasmo, para nunca mais voltar de lá. Ao defender sua tese sobre predestinação um dos seus colegas, Franciscus Gomaro, viu em Armínio um contestador da confissão reformada e por isso tornou seu adversário.
A Igreja na Holanda professava nos seus Símbolos de Fé o ensino sistemático do reformador João Calvino. Desta forma:
Após ter passado a era dos Reformadores, os principais frutos do seu labor foram preservados nas nascentes igrejas estatais protestantes da Europa. Os 39 artigos da Igreja da Inglaterra eram francamente luteranos, enquanto que a igreja estatal da Holanda foi fortemente calvinista, tendo a Confissão Belga como o principal padrão doutrinário (WRIGHT, Op. Cit. Pg.30).
Depois da morte de Armínio em 1609, o grupo arminiano publicou, em 1610, “A Remonstrância” (Pleiteio, pedido). Os remonstrantes, discípulos e alunos de Armínio compilaram uma afirmação e defesa das cinco doutrinas contrárias ao calvinismo.
Os teólogos calvinistas constituídos de 84 renomados eruditos reformados reuniram-se na cidade de Dort, na Holanda, sendo desta forma o arminianismo condenado como heresia em 1619, após sete meses de discussões em 154 seções. Esses teólogos também formularam cinco respostas às doutrinas arminianas que ficaram conhecidas em homenagem ao grande reformador João Calvino como Os Cinco Pontos do Calvinismo. O nosso próximo assunto.

Os Cinco Pontos da Remonstrância

Este manifesto “A Remonstrância” (Pleiteio, pedido) pedia uma revisão tanto do Catecismo de Heidelberg como da Confissão Belga (1563), eles queriam remodelar ou acomodar o seu “novo” ensino que na verdade tratava-se da velha heresia da salvação por obras.  Os armianianos, assim ensinavam:
Livre-arbítrio ou capacidade humana
O homem, mesmo caído, ainda tem condições de atender por si mesmo ao chamado do evangelho, vindo por seus próprios recursos a arrepender-se e exercer a fé; para os arminianos não existe morte espiritual em termos absolutos (FABIANO, 2009, Pg. 1).
Eleição Condicional
Deus não teria marcado ninguém para salvar-se ou perder-se, mas a eleição antes da fundação do mundo seria baseada na presciência divina, que elegeria aqueles que de antemão previu que iriam arrepender-se e crer, sendo, portanto, o conjunto dos eleitos aberto, sem garantir a segurança de qualquer pessoa antes do encerramento de sua história (FABIANO, Op. Cit. Pg. 1).
Expiação Geral ou Ilimitada
Segundo o arminianismo, Cristo morreu para salvação não um em particular, porém somente àqueles que exercem sua vontade livre e aceitam o oferecimento de vida eterna. Daí, a morte de Cristo foi um fracasso parcial, uma vez que os que têm volição negativa, isto é, os que não a querem aceitar, irão para o inferno (SPENCER, 2000, Pg. 16).
Graça Resistível
O arminianismo crê na graça resistível. Ou seja, que depende do pecador permitir que a graça de Deus o alcance, ou resistir a ela. Crer que aplicação da redenção ao coração dos pecadores não é obra soberana do Espírito Santo, mas depende da vontade livre do homem que pode submeter-se ou resistir à graça de Deus (ANGLADA, 2000, Pg. 6).
Insegurança da Salvação
Deus de fato provê os crentes de suficientes forças para perseverar e está pronto para preservar tais forças neles, se estes cumprirem seu dever; mais ainda que todas estas coisas tenham sido estabelecidas como necessárias para preservar a fé, ainda assim dependerá da vontade humana perseverar ou não (DORT, 1998, Pg.50).
O Doutor Fabiano Antônio nos lembra que, do sistema arminiano formulado pelos remonstrantes, Armínio discordaria do 5º ponto, pois apesar de toda a sua incapacidade de entender o que os reformadores ensinaram, jamais duvidou da Perseverança dos Santos. Assim, percebemos desde o inicio a inconsistência do pastor e teólogo; fazendo-nos pensar no que seja o sistema arminiano conhecido hoje.  

Os Cinco Pontos Calvinismo

A resposta dada ao partido arminiano foi a seguinte:
Depravação Total
Refere-se à queda completa e abrangente da natureza humana, como explicada na concepção agostiniana da seriedade do pecado. A mente e a vontade em particular são ambas escravas da natureza pecaminosa (WRIGHT, Op. Cit. Pg.108).
O Calvinismo entende a queda com o Q maiúsculo e a morte espiritual em termos absolutos. Desta maneira não há meio termo na visão Calvinista quando a Escritura diz que somos escravos do pecado.
Os homens não regenerados, após a queda, são totalmente incapazes de escolher o bem quanto a questões espirituais, visto que estão mortos em delitos e pecados, sendo habilitados apenas por um milagre de ressurreição espiritual (FABIANO, Op. Cit. Pg. 2).
Eleição Incondicional
É a ideia de que Deus elege ou escolhe aqueles a quem ele vai salvar, sem levar em conta qualquer mérito ou condição da parte deles. Todos os pecadores merecem igualmente a morte – não há qualquer base na alma humana, na natureza humana caída, ou nas iterações da natureza humana com verdade do evangelho, que recomende o pecador a um Deus Santo. Portanto, se Deus escolhe um qualquer para salvação, deve ser por razões encontradas especialmente em Deus, não no pecador  (WRIGHT, Op. Cit, Pg.110).
Expiação Limitada
Ensina que Deus determinou que a morte de Cristo fosse um sacrifício substitutivo para realmente efetuar a salvação dos eleitos somente. Cristo não gerou meramente uma massa abstrata de expiação que, então estaria disponível a qualquer um sem distinção que venha pedi-la (Idem, Pg. 110).
Graça Irresistível
Os calvinistas crêem na graça irresistível; na soberania de Deus em aplicar a redenção no coração dos eleitos; no chamado eficaz de Deus para a salvação. Os calvinistas crêem que o que faz alguns submeterem-se e outros rejeitarem a vontade de Deus, em última instância, é graça irresistível de Deus em chamar eficazmente os eleitos para a salvação (ANGLADA, Op. Cit. Pg.6).
Perseverança dos Santos
 A salvação do eleito é eterna, uma vez que a mesma graça de Deus que os salvou agirá eficazmente em suas vidas, de maneira que não poderá cair total e finalmente, pois a justificação, regeneração e adoção são irreversíveis (FABIANO, Op. Cit. Pg.2).
J. I. Packer, outro renomado autor reformado no seu maravilhoso livro, O “Antigo” Evangelho esboça muito bem o sistema arminiano e calvinista da seguinte forma:

Os Cinco Pontos do Arminianismo Os Cinco Pontos do Calvinismo
1. O homem nunca e de tal modo corrompido pelo pecado que não possa crer salvaticiamente no evangelho, uma vez que este lhe seja apresentado. 1. O homem decaído, em seu estado natural, não tem capacidade alguma para crer no evangelho, tal como lhe falta toda a capacidade para dar credito a lei, a despeito de toda indução externa que sobre ele possa ser exercida.
2. O homem nunca e de tal modo controlado por Deus que não possa rejeitá-lo. 2. A eleição de Deus e uma escolha gratuita, soberana e incondicional de pecadores, como pecadores, para que venham a ser redimidos por Cristo, para que venham a receber fé e para que sejam conduzidos a gloria.
3. A eleição divina dos que serão salvos alicerça-se sobre o fato da provisão divina de que eles haverão de crer, por sua própria deliberação. 3. A obra remidora de Cristo teve como sua
finalidade e alvo a salvação dos eleitos.
4. A morte de Cristo não garantiu a salvação para ninguém, pois não garantiu o dom da fé para ninguém (e nem mesmo existe tal dom); o que ela fez foi criar a possibilidade de salvação para todo aquele que crê. 4. A obra do Espírito Santo, ao conduzir os homens à fé, nunca deixa de atingir o seu objetivo.
5. Depende inteiramente dos crentes manterem-se em um estado de graça, conservando a sua fé; os que falham nesse ponto desviam-se e se perdem. 5. Os crentes são guardados na fé e na graça pelo poder inconquistável de Deus, até que eles
cheguem a glória.

Após este exame introdutório à luz da história da Igreja, dos Reformadores no século 16 e observando a teologia já então madura e desenvolvida pela lavra dos puritanos no século 18; não pude permanecer nas fileiras do arminianismo cujo ensino católico romano de salvação por obras é negado pelas Escrituras e pelos antigos mestres que devemos imitar a Fé (Hb 13.7).
Depois de constatar como o Doutor Fabiano Antônio que também foi arminiano, “a total consistência desses ensinos com as Escrituras, não pude fazer outra opção e o meu pêndulo teológico se inclinou irresistivelmente para o calvinismo”.

O Que é Calvinismo?

Chegamos ao fim da nossa introdução, mas antes é preciso terminar com certa classe. Devemos responder a razão da nossa esperança mesmo que seja de maneira breve, o que é então esta força que varreu toda Europa nos séculos 16, 17 e 18, e ainda hoje continua em pleno século 21. Escritores e teólogos que são contra a Fé Calvinista não deixam de declarar todo o seu pessimismo e assim, sem buscar outros livros são pegos pela heresia humanista do arminianismo.
Abraham Kuyper (1837-1930), teólogo reformado na sua obra monumental sobre o Calvinismo, lemos a grande contribuição e influencia desse sistema. O referido autor pergunta o que seria do mundo sem o Calvinismo? Ao que o mesmo responde:
Para provar isto, perguntem-se o que seria a Europa e América teriam se tornado se, no século 16, a estrela do Calvinismo não tivesse subitamente nascido no horizonte da Europa ocidental. Neste caso, a Espanha teria esmagado a Holanda. Na Inglaterra e Escócia, os Stuart teriam executado seus planos fatais (...). O Protestantismo não teria sido capaz de manter-se na política (KUYPER, 2002, Pg. 48).
É importante lembrar que o Calvinismo não estar apenas associado com a doutrina da predestinação, mas também com artes, a libertação dos escravos na América, com o direito de aprender a ler e escrever, e mais ainda com a criação da escola pública para todos e etc. O professor John H. Leith diz:
A comunidade reformada dos séculos XVI e XVII, especialmente seu ramo calvinista, não teve como propósito estabelecer seja uma sociedade democrática ou a tolerância religiosa. Contudo, pode-se se argumentar que a comunidade reformada e mesmo o calvinismo, na sua forma assumida no puritanismo inglês, contribuíram significativamente para a democracia política liberal, para a liberdade religiosa e para o modelo denominacional de vida eclesiástica (LEITH, Op. Cit., Pg. 342).
Assim, antes do Calvinismo ser um apanhado de doutrinas sistemáticas à luz da Bíblia, vamos vê-lo como se opondo as desigualdades impostas e operando transformações sociais e econômicas. 
No aspecto doutrinário sabemos que:
A teologia Reformada reconhece a centralidade real de Deus em todas as coisas, tendo como alvo principal não o tão decantado bem estar humano (que tem sua relevância), mas a glória de Deus, sabendo que as demais coisas serão acrescentadas (Mt 6.33; Ef 1.12-11). Para a teologia reformada, entretanto, é a Palavra de Deus que deve dirigir toda a abordagem e interpretação teológica, bem como de toda a realidade: O Espírito através da palavra é que deve nos guiar à correta interpretação da revelação. As Escrituras são o padrão e apelo final (MAIA, Op. Cit., Pg. 34).
Spurgeon (1843-1892), grande pregador batista afirmou que não estava pregando nenhuma novidade; nenhuma doutrina nova – Gosto imensamente de proclamar essas antigas e vigorosas doutrinas que são conhecidas pelo cognome de Calvinismo e ainda; em sua opinião é que não há pregação de Cristo e este crucificado, a menos que se pregue àquilo que se chama Calvinismo (Apud, ANGLADA, Op. Cit. Pg.1).
O Calvinismo longe de ser mais uma novidade no campo evangélico ou quem sabe mais um “ismo” do momento, é a verdade revelada na Escritura e como bem afirmou o holandês Abraham Kuyper – Nele o meu coração tem encontrado descanso. O reverendo Paulo Anglada citado acima diz o seguinte:
O Calvinismo é a síntese das doutrinas dos reformadores; que por sua vez, é redescoberta da pregação apostólica do evangelho bíblico; e também é confessada na maioria das confissões de fé protestantes. O Calvinismo, portanto, são as antigas doutrinas da graça (ANGLADA, Op. Cit., Pg. 2).
O que é Calvinismo? Packer assim escreve:
O calvinismo é um ponto de vista universal, derivado de uma clara visão de Deus como o Criador e Rei do mundo inteiro. O calvinismo é a tentativa coerente de reconhecer o Criador como o Senhor, Aquele que faz todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade. O calvinismo é uma maneira teocêntrica de pensar acerca da vida, sob a direção e controle da própria Palavra de Deus. Em outras palavras, o calvinismo é a teologia da Bíblia vista da perspectiva da Bíblia — a visão teocêntrica que vê o Criador como a origem, o meio e o fim de tudo quanto existe, tanto no âmbito da natureza quanto no âmbito da graça. O calvinismo, assim sendo, reflete o teísmo (a crença em Deus como o fundamento de todas as coisas), reflete a religião (a dependência a Deus como o doador de todas as coisas), e reflete a posição evangélica (a confiança em Deus através de Cristo, para todas as coisas), tudo na sua forma mais pura e mais altamente desenvolvida.
O calvinismo é uma filosofia unificada da história, que encara a inteira diversidade de processos e eventos que têm lugar no mundo de Deus, como nada mais e nada menos do que a concretização de Seu grandioso plano preordenado, visando Suas criaturas e Sua Igreja.
Os cinco pontos asseveram precisamente que Deus é sobe­rano quando salva o indivíduo; mas o calvinismo, como tal, preocupa-se com assertivas muito mais amplas, acerca do fato que Deus é soberano em tudo (PACKER, 1992, Pg. 6).
Mais uma definição do que seja ou o que é Calvinismo é que e um conceito dos modernos historiadores:
Calvinismo é um conceito que devemos aos historiadores modernos. Quando o usarmos, tenhamos a certeza que as Igrejas reformadas do século XVI, e do século XVII, e mesmo a do século XVIII, já mais se nomearam calvinistas (Apud, MAIA, Op. Cit., 9).
Quem pode ser calvinista? Somente aqueles que foram tocados pela majestade de Deus, como Isaías fora quando contemplou o Senhor (Is 6). Kuyper de maneira profunda afirmou:
Somente é verdadeiro calvinista e pode levantar a bandeira calvinista aquele que, em sua própria alma, foi tocado pela Majestade do Altíssimo, e submisso ao seu poder esmagador de seu amor eterno ousou proclamar este amor majestoso em oposição a Satanás, ao mundo e ao mundanismo de seu próprio coração, na convicção pessoal de haver sido escolhido pelo próprio Deus e, portanto, devendo agradecer a ele e a ele somente por toda graça eterna (KUYPER, Op. Cit., Pg. 77).
Depois de mostrar o pensamento de grades expoentes da Fé Calvinista, fica claro que a caricatura mal feita e absurda que fazem os oponentes e certos autores armianianos não condiz com a verdade. O Calvinismo é uma religião da mente e do coração. Dos livros e da piedade. “É o canal em que se moveu a Reforma do século 16, enriquecendo a vida cultural e espiritual dos povos que o adotaram. O sistema que hoje a igreja cristã deve reconhecer como bíblico” ou como bem disse o Pastor Antônio Carlos, “O santo reformado é alguém que vive sob a luz da doutrina, avalia suas experiências pela doutrina, vê sentido no que faz por causa da doutrina e não espera que suas afeições se elevem sem que primeiro lugar a mente tenha sido esclarecida pela doutrina” (COSTA, 2005, Pg. 120).
Por fim, faço das minhas últimas palavras a do grande teólogo suíço Karl Barth (1886-1968), cuja escrita calvinista é viva e profunda em dizer: “O verdadeiro discípulo de Calvino só tem um caminho a seguir: não obedecer ao próprio Calvino, mas àquele que era o mestre de Calvino” (Apud, COSTA, 1999, Pg. 181).


Extraído do site: http://www.eleitosdedeus.org

2 comentários:

  1. Eu estou Maravilhado com a Riqueza deste estudo. Parabéns! Vou usa lo em meus estudos. Obrigado!

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